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vejaEm nome da Sociedade Vegetariana Brasileira, como Coordenadora do Departamento de Saúde e Nutrição, venho solicitar o direito de resposta e a exclusão do texto sobre dieta vegana publicado no site da Revista Veja na data de 14 de dezembro de 2018. O texto possui erros técnicos, a partir de interpretação equivocada e limitada da literatura científica atual, fomentando preconceitos e configurando agressão à comunidade vegetariana e à própria alimentação vegetariana - que é considerada segura e equilibrada para todas as fases da vida, incluindo para prática esportiva, pelas maiores e mais conceituadas academias dietéticas do mundo.

Está à luz do conhecimento e acesso de todos, por publicações atuais nos principais jornais e revistas científicas sobre o tema, que a Academia de Nutrição e Dietética Americana , na última atualização do seu Guideline, publicada em 2016, apresenta um parecer sobre dietas vegetarianas e veganas em que é atestada a segurança, qualidade e benefícios do tal modelo dietético para todas as fases da vida, da gestação, infância, gestação, fase adulta, senilidade e para os atletas. No mesmo parecer está a afirmação baseada em evidências de que a dieta vegetariana tem a capacidade de prevenir e também reverter as principais doenças crônicas não transmissíveis que configuram na atualidade as principais causas de morte humana no mundo - estamos falando de obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e também câncer. Para que fique clara a importância de tal documento, a Academia de Nutrição e Dietética Americana é considerada a maior instituição de dietética do mundo e, a partir de suas publicações, são elaborados os guias alimentares de todo o mundo.

Na manchete da matéria e no desenrolar de seu texto levanta-se a hipótese, com teor afirmativo, de que a dieta vegana pode levar à carência de certos micronutrientes. Existe uma afirmação por parte do autor de que a dieta vegana está relacionada à causa da “Fome Oculta” entre os que a praticam o que contestamos com base na ciência e principalmente a correta interpretação dos dados que constam nas evidências científicas atuais, incluindo as que constam para consulta no texto.

Não poderíamos deixar de ressaltar que a “Fome Oculta” ou seja, a carência crônica de micronutrientes ofertados pela dieta é fato comum e comprovado na população em geral que não necessariamente é vegetariana e, pelo contrário, está mais diretamente relacionada a indivíduos com quadro de sobrepeso e obesidade que, por sua vez, está diretamente ligado à prática de um modelo alimentar baseado em alimentos refinados e processados, fontes de gorduras e açúcares em excesso.

Publicado em 2011, o estudo Antioxidant intake among Brazilian Adults – The Brazilian Osteoporosis Study (BRAZOS): a cross-sectional study avaliou, através de recordatório alimentar, o consumo das vitaminas A, C e E, além dos minerais zinco e selênio de 2.344 indivíduos habitantes de 150 cidades brasileiras. Ao se comparara ingesta de tais nutrientes e as recomendações dietéticas vigentes (DRIs), os resultados demonstraram que grande proporção da população brasileira consome tais nutrientes na quantidade abaixo do recomendado nas DRIs como, por exemplo, vitamina E (99,7% abaixo do recomendado), vitamina A (92,4% abaixo do recomendado) e vitamina C (85,1% abaixo do recomendado).

As deficiências marginais de micronutrientes estão largamente presentes em toda a população e não é uma exclusividade de vegetarianos e veganos.

A dieta vegetariana planejada (assim como toda dieta deve ser) propõe ao indivíduo que a pratica um abundante aporte de vitaminas, minerais, ácidos graxos essenciais, fibras e compostos bioativos - esses últimos, quase que em sua totalidade, estão exclusivamente presentes em vegetais. Vivemos uma pandemia de obesidade e doenças crônicas, tendo como maior causa de morte no mundo as doenças cardiovasculares. Propor à população um modelo alimentar de menor densidade calórica, baixa ingesta de gorduras saturadas, maior densidade nutritiva e rico em fibras é, sem dúvidas, propor maior proteção, qualidade de vida e longevidade à população.

Sobre o cálcio:

O texto da matéria afirma que a população praticante de dieta vegana tem maior risco de fraturas devido à menor ingesta de cálcio dietético. Para embasar tal afirmação usou-se como fonte um estudo de Epic Oxford , que infelizmente não foi interpretado de forma correta pelo autor.

No EPIC Oxford, o aumento de 30% na taxa de fratura óssea ocorreu apenas quando não foram comparados fatores dietéticos entre os grupos. Porém, esse risco caiu pela metade em magnitude quando feito o ajuste de energia e ingestão de cálcio e desapareceu completamente quando a análise foi restrita a indivíduos que consumiram pelo menos 525 mg / dia de cálcio.

Assim, o maior risco de fratura em veganos parece refletir a sua menor ingestão média de cálcio. Isso nos mostra que a ingestão adequada de cálcio é, sim, essencial para a saúde óssea, independentemente das preferências alimentares. Portanto, não é o padrão alimentar o responsável pelo aumento do risco, mas uma baixa ingestão de cálcio por uma parte dos veganos, o que pode ser prontamente solucionado a partir da maior ingestão de alimentos fontes de cálcio, ou fortificados com este mineral.

Mais além, um estudo sobre monjas budistas vegetarianas estritas encontrou menor ingestão de cálcio, mas não houve diferenças na densidade óssea, incidência de fraturas ou frequência de osteoporose em comparação com não vegetarianas. Ainda na Ásia, uma pesquisa feita commulheres em menopausa não encontrou efeitos adversos da dieta vegana em perda óssea e risco de fratura. Outro estudo publicado no Journal of the American Dietetic Association não encontrou diferença na densidade óssea (medida na coluna lombar e colo do fêmur) entre veganos, ovolactovegetarianos e onívoros.

Já outra pesquisa avaliou o equilíbrio de cálcio em mulheres que receberam uma dieta vegetariana estrita durante os primeiros 10 dias, e uma dieta lactovegetariana durante os 10 dias seguintes: o equilíbrio de cálcio permaneceu positivo, independentemente da ingestão. Este resultado indica que a menor ingestão de cálcio da dieta vegana foi compensada pela excreção reduzida de cálcio nas fezes. As duas dietas não foram associadas a diferenças no balanço de cálcio, absorção aparente ou reabsorção óssea de cálcio (avaliada por um marcador de urina).

Sobre o ferro:

Outro grande equívoco pontuado na matéria é sobre o aporte de ferro em dietas vegetarianas através da frase “As dietas veganas consistem de ferro não-heme, que não são absorvidos pelo sangue”. A população vegetariana e vegana não apresenta taxas mais elevadas de deficiência de ferro, embora os estoques de ferro possam ser menores. Na verdade, a ferritina mais baixa pode ser uma vantagem em termos de risco reduzido de câncer e síndrome metabólica.

A Italian Society of Human Nutrition pontua que a biodisponibilidade do ferro não-heme é um pouco menor, o que é muito diferente de não ser absorvido como afirma a matéria, com 5 e 12% de absorção, comparado com 14 e 18% das dietas OMN (onívoras). Mesmo depois de muitos anos com uma dieta ovolactovegetariana (LOV) ou vegana (VEG), os níveis séricos de ferro em adultos geralmente não diferem significativamente dos onívoros. A ingestão média de ferro em homens LOV / VEG pode, de fato, ser maior do que em homens onívoros. Mulheres LOV / VEG também têm uma ingestão de ferro semelhante às onívoras e, após muitos anos em uma dieta vegetariana, seu status de ferro é adequado. As mulheres pré-menopáusicas com VEG e OMN tinham riscos semelhantes de desenvolver anemia ferropriva.

Estudos em mulheres jovens também mostram que a anemia por deficiência de ferro está presente em níveis semelhantes em LOV e VEG (pelo menos dois anos) e OMN. Assim, a perda de ferro menstrual, em vez da dieta, aparece como a principal causa da anemia por deficiência de ferro. Em mulheres na pós-menopausa, descobriu-se que a ferritina sérica elevada é um fator de risco para doenças cardiovasculares, de modo que as dietas LOV e VEG podem ser protetoras contra essas condições.

Sobre a vitamina D:

O principal fator ligado à deficiência desta vitamina é o estilo de vida urbano, que diminui a exposição da pele ao sol, mesmo em países tropicais como o Brasil. A produção da vitamina depende diretamente da área de pele exposta ao sol e do horário de exposição. Raios UVB exercem a estimulação necessária para a produção de vitamina D que ocorre entre 10h e 15h. A ingestão da vitamina D mesmo em populações de países desenvolvidos é muitas vezes insuficiente para a manutenção de níveis adequados da vitamina, como se pode ver neste estudo . Alguns autores consideram inclusive uma epidemia ignorada e um problema de saúde global. Independente da escolha alimentar, é importante a realização de exames com regularidade para a verificação dos níveis de vitamina D. Alguns estudos mostram que a suplementação de vitamina D através da vitamina D2 seria menos potente, porém isto não é limitação para a suplementação visto que veganos podem fazê-la facilmente através de doses mais altas de vitamina D2 ou mesmo através de suplementos de vitamina D3 produzida a partir de líquens. De fato, a resposta à suplementação varia individualmente e seu acompanhamento deve ser realizado por um profissional capaz de adequar a dose de acordo com as necessidades do paciente.

Sobre a vitamina B12

A vitamina B12 é produzida por bactérias e animais também precisam de fontes desta vitamina.

A suplementação de vitamina B12 é amplamente utilizada e sua efetividade é amplamente reconhecida na literatura. O uso de suplementos é inclusive utilizado por produtores de carne bovina, visto que a prevalência da deficiência desta vitamina é frequente também em animais, conforme informa a EMBRAPA . A sua deficiência é, de fato, uma preocupação para vegetarianos que não a acompanham regularmente através de exames bioquímicos e não a suplementam. Contudo, a suplementação é simples e acessível, e vegetarianos/veganos que acompanham regularmente seus níveis não costumam apresentar problemas relacionados a sua deficiência. Um estudo suíço observou uma baixa prevalência de deficiência decorrente da integração da vitamina, apesar da ingestão negligível de vitamina B12 através da dieta.

Contudo, a deficiência de vitamina B12 não é exclusividade da população vegetariana. Ela pode surgir também de uma absorção inadequada, de defeitos genéticos ou de uma ingestão inapropriada. Por isto, um acompanhamento dos níveis desta vitamina se faz imprescindível. Embora a deficiência de vitamina B12 seja uma preocupação na população vegetariana/vegana, um maior consumo de carnes, leite e ovos aumenta também o consumo de gorduras saturadas. Uma dieta rica nestas gorduras pode elevar o colesterol total e um aumento do colesterol LDL, responsável pela formação de placas nas artérias do coração e em outras partes do corpo. A Organização Mundial da Saúde recomenda a restrição do consumo destes tipos de gorduras por conta de um corpo consistente de evidências que associam o consumo de gorduras saturadas ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, a causa principal de morte mundial.

Por isso, dietas vegetarianas bem planejadas podem incorporar uma série de benefícios, como a redução do consumo de gorduras saturadas e colesterol e um aumento do consumo de fibras e fitonutrientes. É por esse motivoque associações importantes já se posicionam de modo favorável à adoção de dietas vegetarianas.

Sobre o iodo:

Indivíduos veganos que não possuem o hábito de consumir alimentos vegetais oriundos dos mares, como, por exemplo, as algas, possuem baixo acesso a fontes alimentares de iodo. Porém, na atualidade, tal fato não é relevante, uma vez que o sal refinado no Brasil é enriquecido com iodo, garantindo a toda população o aporte adequado deste mineral. Isso ocorre porque ingestão deficiente pela população em geral se configurou como preocupante pelas autoridades de saúde que optaram pela suplementação de iodo através do sal de cozinha.

Sobre o ômega 3:

Os ácidos graxos ômega 3 (W3) são considerados essenciais na dieta humana pois nosso corpo não consegue sintetizá-los diretamente. A mais abundante forma de se encontrar W3 na alimentação é na forma de ácido alfa linolênico (ALA), encontrado em alimentos como a linhaça, chia, soja, nozes, vegetais folhosos verdes escuros etc. O ALA, através de processos bioquímicos e enzimáticos (elongases e dessaturases) em nosso corpo é convertido em EPA e DHA, ácidos graxos que reconhecidamente são importantes para nossa saúde neurológica e estruturas celulares além de, com controvérsias, saúde cardiovascular. Os animais (especialmente os peixes gordurosos de águas frias e profundas) são fontes alimentares diretas de EPA e DHA, pois se alimentam de microalgas que os sintetizam ou, secundariamente, de zooplânctons, que se alimentam de algas. O Institute of Medicine (IOM), que propõe as diretrizes nutricionais, tem recomendação diária (DRI) para o ALA, mas não tem pra DHA e EPA devido à capacidade bioquímica humana de os sintetizarem a partir do ALA.

Existem exaustivos estudos que avaliam a nossa eficiência em converter o ALA em DHA e EPA. Por isso, vemos recomendações menos embasadas de se valorizar o consumo de óleo de peixe, pois, neste caso, entregaríamos diretamente o DHA e EPA sem contar com a maestria do nosso metabolismo bioquímico de fazer essa conversão. Realmente, a conversão desses ácidos graxos não é tão eficiente, visto que pesquisas sugerem que, de todo ALA consumido, convertemos em torno de 5 a 10% em EPA e aproximadamente 2,5% em DHA. Recentes revisões da literatura falam de conversões em torno de 21% para ALA e 9% para o DHA. O que interfere essas taxas de conversões são a idade, sexo, gestação e infância e fatores não-nutricionais como o tabagismo, hipertensão, diabetes e síndrome metabólica que comprovadamente diminuem as taxas de conversões. Em se tratando de indivíduos saudáveis, estudos recentes apresentados pela NIH (National Institutes of Health) sugerem o consumo total de 2 a 3% das calorias diárias provenientes de LA (ácido linoleico) e 1% de ALA, o que é facilmente atingido em uma dieta vegetariana estrita que inclua diariamente sementes como linhaça e chia e algumas oleaginosas como nozes, além de leguminosas.

Em resumo, as evidências apresentadas configuram a segurança da prática do vegetarianismo estrito em qualquer faixa etária, uma vez que, ao mesmo tempo, evidencia-se a necessidade de se praticar dietas equilibradas independente do modelo dietético seguido, seja ele vegano, ovolactovegetariano ou onívoro.

Pedimos à revista que tenha maior cuidado ao comunicar fatos e afirmações relacionados à alimentação e saúde humana, buscando embasamento com o mais alto critério de responsabilidade, praticando, assim, a comunicação ética e verdadeira que, por sua vez, é um direito do leitor.

Texto elaborado pelo Departamento de Saúde e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB).

Alessandra Luglio
Nutricionista
CRN-3 6893
Coordenadora do Departamento de Saúde e Nutrição da Sociedade Vegetariana  Brasileira.

Colaboradores:

Karla Daniela Santone
Médica mastologista e pós-graduada em Nutrologia
CRMSP 117154

Morena Duarte Bertuzzi
Engenheira Química e mestranda em Ciências da Nutrição na Universidade de Pisa

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