Justiça Social – ODS

Veganismo: Uma questão de justiça alimentar

Atualmente, cerca de 780 milhões de pessoas sofrem de fome em todo o mundo, o que equivale a 10% da população global (ACTION AGAINST HUNGER, 2023). Além disso, 2,4 bilhões de pessoas enfrentam situações de insegurança alimentar (FAO, 2023). Apesar dos compromissos globais estabelecidos pela Agenda 2030 e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), particularmente o ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, essas estatísticas têm piorado nos últimos anos, principalmente após a pandemia da COVID-19 (ibidem, 2023).

Neste contexto, é necessário discutir a adoção do veganismo como uma escolha que pode ir além do âmbito individual e se configurar também como uma questão de justiça alimentar. É fundamental debater essa alternativa em um cenário global de enorme disparidade na distribuição de alimentos já que, enquanto a produção mundial prioriza a nutrição animal para consumo humano, 10% da população do planeta enfrenta a fome.

É importante enfatizar que essa situação não é devido à escassez de produtos, mas sim à desigualdade. Embora haja alimentos em abundância no planeta, sua distribuição desigual resulta em milhões de pessoas passando fome. Para ilustrar essa questão, tem-se que a criação de animais para consumo utiliza 83% das terras agrícolas do mundo, mas fornece apenas 37% das proteínas e 18% das calorias consumidas globalmente (POORE; NEMECEK, 2018).

De acordo com dados da National Geographic Magazine (2024), somente 55% das calorias produzidas pelas plantações mundiais alimentam diretamente as pessoas, enquanto o restante é usado na alimentação de animais para consumo. Além disso, para cada 100 calorias (kcal.) de grãos fornecidas aos animais, obtêm-se cerca de 40 kcal. de leite, 22 kcal. de ovos, 12 kcal. de frango, 10 kcal. de porco e 3 kcal. de carne bovina (ibidem, 2024). Portanto, este processo é extremamente ineficiente. Assim, a adoção de uma alimentação à base de plantas, além de ser muito mais eficaz do ponto de vista energético, também proporciona melhores resultados à saúde do que as dietas à base de animais (BANSAL, 2018).

Do ponto de vista ambiental, o uso excessivo de recursos naturais na pecuária está esgotando a disponibilidade de água e solo necessários para o cultivo de alimentos em países com populações desnutridas (UNEP, 2020). A pecuária também é uma grande responsável pelas emissões de gases de efeito estufa, representando 18% das emissões globais. Além disso, é a principal contribuinte para a conversão de habitats e perda de biodiversidade (INTERNATIONAL AID FOR THE PROTECTION AND WELFARE OF ANIMALS, 2022).
Ao diminuir o consumo de alimentos de origem animal e optar por alimentos veganos, a terra usada para cultivo de ração e pasto poderia ser efetivamente utilizada para plantações, capazes de alimentar mais pessoas (SIGLER et al., 2017). Isso se torna especialmente relevante em um momento em que projeções globais apontam que, até 2050, a população mundial aumentará em 2 bilhões de pessoas (UNITED NATIONS, 2023). Somado a isso, pesquisas indicam que a demanda por alimentos de origem animal, como carne e laticínios, deve crescer quase 70% entre 2010 e 2050, com a maior parte da demanda vindo de países em desenvolvimento (WORLD RESOURCES INSTITUTE, 2019). Levando em consideração que a carne bovina requer 20 vezes mais terra e emite 20 vezes mais gases de efeito estufa por grama de proteína comestível do que proteínas vegetais comuns, como feijão, ervilhas e lentilhas (WORLD RESOURCES INSTITUTE, 2018), uma mudança no padrão alimentar mundial se mostra urgente.

Do ponto de vista ético, a exploração animal para o consumo humano também levanta sérios questionamentos sobre o sofrimento e morte de bilhões de animais anualmente. Somado a isso, há a questão do descaso com trabalhadores do setor, já que existe uma notável relação entre a indústria da carne e o trabalho escravo contemporâneo no Brasil, que é o maior exportador de carne bovina do mundo (REPÓRTER BRASIL, 2021). E, por fim, há a fome e insegurança alimentar imposta a uma grande parte da população mundial, que deixa de ter acesso a alimentos em detrimento da nutrição de animais para consumo.

Diante dessa realidade, a adoção de uma alimentação vegana, juntamente com iniciativas governamentais que incentivem tal transição, surge como uma solução viável e urgente para promover a justiça alimentar e alcançar o ODS 2. Em suma, uma mudança global na alimentação, focada em produtos vegetais nutritivos e acessíveis, tem o potencial de combater a desigualdade na distribuição de alimentos, contribuir para um uso mais sustentável dos recursos naturais e garantir segurança alimentar e saúde para todos.

Referências bibliográficas:

ACTION AGAINST HUNGER. 10 facts about world hunger, 2023. Disponível no link, acesso em mar. 2024.

BANSAL, A. A medical case for a whole food, plant-based diet. Disponível no link, 30 mai. 2018.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). The State of Food Security and Nutrition in the World, 2023. Disponível no link, acesso em mar. 2024.

INTERNATIONAL AID FOR THE PROTECTION AND WELFARE OF ANIMALS. The Environmental Cost of Animal Agriculture. Disponível no link, 5 ago. 2022.

NATIONAL GEOGRAPHIC MAGAZINE. Feeding 9 billion, 2024. Disponível no link, acesso em mar. 2024

POORE, J.; NEMECEK, T. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. In: Science 360, 987–992, 2018.

REPÓRTER BRASIL. Trabalho escravo na indústria da carne, 2021. Disponível no link, acesso em mar. 2024.

SIGLER, J. et al. Animal-based agriculture Vs. Plant-based agriculture. A multi-product data comparison, 2017. Disponível no link, acesso em mar. 2024.

UN ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). 10 things you should know about industrial farming. Disponível no link, 20 jul. 2020.

UNITED NATIONS. Global issues – Population, 2023. Disponível no link , acesso em mar. 2024.

WORLD RESOURCES INSTITUTE. How to Sustainably Feed 10 Billion People by 2050, in 21 Charts. Disponível no link, 5 dez. 2018.

WORLD RESOURCES INSTITUTE. Creating a Sustainable Food Future. Disponível no link, 19 jul. 2019.

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