Justiça Social – ODS
Estabelecidos pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são uma agenda mundial com 17 metas. Com a adesão de mais de 190 países, incluindo o Brasil, os ODS objetivam erradicar a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima, e garantir paz e prosperidade para todos.
O veganismo está diretamente alinhado com essa agenda, pois a adoção de uma alimentação vegana tem grande potencial para promover a justiça social e a proteção ambiental. Na sequência, vamos demonstrar que o veganismo, além de uma escolha ética e de respeito aos animais, também tem o poder de impactar positivamente questões globais urgentes, como a fome e as mudanças climáticas.
Autora: Julia Lopes
Autora: Julia LopesO primeiro dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pelas Nações Unidas visa erradicar a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Até 2030, algumas metas desse objetivo incluem: (i) assegurar que todos, especialmente os pobres e vulneráveis, tenham direitos iguais aos recursos econômicos, acesso a serviços básicos, propriedade e controle sobre a terra; (ii) reduzir a exposição e vulnerabilidade dos mais pobres a eventos climáticos extremos (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2024). O veganismo se relaciona profundamente com o alcance do ODS 1, pois tem grande potencial para fortalecer economias locais, garantir a dignidade de todos e reduzir a vulnerabilidade a eventos extremos.
A indústria da carne, historicamente associada a grandes latifúndios e à propagação de monoculturas, concentra o lucro nas mãos de poucos, perpetuando a exclusão social e limitando as oportunidades para a população rural. Um estudo da Oxfam (2019) revelou que menos de 1% das propriedades agrícolas detém quase metade da área rural brasileira, enquanto milhões de pequenos agricultores familiares lutam por acesso à terra e condições dignas de vida. Além disso, segundo Mitidiero Jr. & Goldfarb (2019), municípios marcados pelo agronegócio têm menor nível de desenvolvimento humano no Brasil. Mesmo em regiões com produção agropecuária pujante, como Centro-Oeste, Sul e Sudeste, não há aumento no nível de desenvolvimento dos municípios quando comparados àqueles que têm outra atividade econômica principal.
A pecuária também se destaca pela exploração do trabalho de populações mais vulneráveis, evidenciada pela notável relação entre a indústria da carne e o trabalho escravo contemporâneo no Brasil. Historicamente, no país, a maioria dos casos de trabalho escravo ocorre na zona rural, com a pecuária concentrando o maior número de casos. O setor foi responsável por mais da metade dos casos de trabalho escravo identificados no Brasil entre 1995 e 2020 (REPÓRTER BRASIL, 2021). Essa realidade reforça as disparidades sociais e impede o desenvolvimento humano digno no campo. Como resultado, dados do Banco Mundial revelam que, entre 2000 e 2022, o percentual de habitantes do Brasil que vivem no campo caiu 33,8%. Globalmente, a redução foi de 19,2% (BRASIL DE FATO, 2024).
Além disso, o agronegócio está historicamente relacionado a práticas ilegais como a grilagem de terras — ou seja, o processo de fraude e falsificação do título de propriedade de grandes extensões de terras. Essa prática inclui a apropriação de terras públicas por latifundiários para a produção de commodities como gado e soja (usada para a produção de ração animal), frequentemente em territórios camponeses e indígenas (JAKIMIU, 2022). Adicionalmente, com o avanço das monoculturas — que causam desmatamento, reduzem a biodiversidade, poluem o ambiente através do uso de agrotóxicos e esgotam recursos hídricos —, essas populações sofrem com pobreza e insegurança alimentar. A dimensão do problema fica clara quando consideramos que, no Brasil, o agronegócio já ocupa 50% do Cerrado (MAPBIOMAS, 2023) e que 90% das áreas desmatadas na Amazônia são destinadas à agricultura (UFMG, 2023).
No que diz respeito aos eventos climáticos extremos, o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima – IPCC (2023), que representa o consenso de grande parte da comunidade científica internacional, afirmou que as emissões de gases de efeito estufa (GEE) resultantes de atividades humanas têm aumentado a frequência e intensidade de eventos extremos. Consequentemente, pode-se afirmar a contribuição relevante da pecuária para a ocorrência de extremos climáticos, dadas as elevadas emissões de GEE do setor. De acordo com dados da UNEP (2023), as emissões do setor pecuário representam 18% das emissões globais. No Brasil, em 2022, 57,2% das emissões totais de GEE do país vieram apenas da cadeia produtiva de carne bovina (SEEG, 2023).
Ainda segundo o IPCC (2023), as comunidades vulneráveis, que historicamente contribuíram menos para a atual mudança climática, são desproporcionalmente afetadas pelos eventos extremos. Mais de 3 bilhões de pessoas vivem em contextos altamente vulneráveis às mudanças climáticas. Os impactos mais adversos são observados em comunidades empobrecidas na África, Ásia, América Central e do Sul, bem como globalmente entre povos indígenas, pequenos produtores de alimentos e famílias de baixa renda. Não por acaso, os países periféricos se apresentam como palco de mais de 70% dos desastres registrados mundialmente (FIALA, 2017). Esse cenário está diretamente relacionado ao que muitos autores chamam de injustiça ambiental, ou seja, a constatação de que riscos ambientais recaem desproporcionalmente sobre comunidades historicamente exploradas (BULLARD, 1983). No Brasil, diversos estudos apontam que os mais afetados por eventos extremos são as minorias (relacionadas a questões de cor, classe e gênero) que vivem em regiões periféricas, em condições precárias de moradia e com déficit de infraestrutura urbana e serviços públicos (SILVA, 2022).
Podemos constatar, portanto, que a produção de alimentos de origem animal desempenha um papel central nesse cenário, contribuindo para a concentração de renda, a degradação ambiental e a vulnerabilidade de comunidades mais pobres. O veganismo, por outro lado, valoriza a diversidade alimentar e é um grande aliado do fortalecimento da agricultura familiar e de sistemas produtivos que prezam por práticas ambientalmente amigáveis, como produções orgânicas e agroecológicas. Essas iniciativas, por sua vez, contribuem para o crescimento de economias locais, gerando emprego e renda para comunidades rurais, o que ajuda a reduzir as desigualdades e promover o desenvolvimento sustentável. Além disso, ao incentivar sistemas alimentares baseados em produtos de origem vegetal, o veganismo ajuda a reduzir as emissões de gases do efeito estufa, colaborando para a mitigação do aquecimento global e para a redução da ocorrência de eventos climáticos extremos.
Autora: Julia Lopes
Referências bibliográficas
BRASIL DE FATO. Como o agronegócio despovoa o campo. Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/como-o-agronegocio-despovoa-o-campo/. 21 fev. 2024.
BULLARD, R. D. Confronting Environmental Racism. Voices from the Grassroots. Boston: South End Press, 1983.
FIALA, O. Natural Disasters in Developing Countries. In: Natural Disasters and Individual Behaviour in Developing Countries. In: Contributions to Economics. Springer, Cham, 2017.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Geneva, Switzerland, pp. 1-34, doi: 10.59327/IPCC/AR6-9789291691647.001
JAKIMIU, C. Injustiça ambiental e as lutas ecológicas no campo brasileiro. In: Revista de Geografia Agrária, v. 17, n. 46, p. 152-179, 2022. https://doi.org/10.14393/RCT174607
MAPBIOMAS. Perda de vegetação nativa no Brasil acelerou na última década. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/2023/08/31/perda-de-vegetacao-nativa-no-brasil-acelerou-na-ultima-decada/. 31 ago. 2023.
MITIDIERO JR., M.; GOLDFARB, Y. O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo. Associação Brasileira de Reforma Agrária, Friedrich Ebert Stiftung. 40 f., 2021. Disponível em: https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/18319-20211027.pdf. Acesso em: set. 2024.
NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 1: Erradicação da pobreza. Disponível em https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/1. Acesso em: set. 2024.
OXFAM BRASIL. Menos de 1% das propriedades agrícolas é dona de quase metade da área rural brasileira. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/menos-de-1-das-propriedades-agricolas-e-dona-de-quase-metade-da-area-rural-brasileira/, 27 ago. 2019.
REPÓRTER BRASIL. Trabalho escravo na indústria da carne, 2021. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2020/12/Monitor-8_Trabalho-escravo-na-industria-da-carne.pdf. Acesso em: set. 2024.
SILVA, J. L. Gestão de desastres no Brasil: uma perspectiva de gênero. Campinas, 347 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, PUC-Campinas, 2022.
SISTEMA DE ESTIMATIVA DE EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA – SEEG. Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa dos Sistemas Alimentares no Brasil, 2023. Disponível em: https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2023/10/SEEG_alimentares.pdf. Acesso em: set. 2024.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Expansão do agronegócio na Amazônia e no Cerrado gera perdas econômicas, revela pesquisa. Disponível em https://ufmg.br/comunicacao/noticias/expansao-do-agronegocio-na-amazonia-e-no-cerrado-gera-perdas-economicas-revela-pesquisa#:~:text=Na%20Amaz%C3%B4nia%2C%20mais%20de%2090,doutorado%2C%20Argemiro%20Teixeira%20Leite%20Filho 20 nov. 2023.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME – UNEP. What’s Cooking? An assessment of the potential impacts of selected novel alternatives to conventional animal products. Nairobi, 2023. https://doi.org/10.59117/20.500.11822/44236.
Autora: Julia Lopes
Atualmente, cerca de 780 milhões de pessoas sofrem de fome em todo o mundo, o que equivale a 10% da população global (ACTION AGAINST HUNGER, 2023). Além disso, 2,4 bilhões de pessoas enfrentam situações de insegurança alimentar (FAO, 2023). Apesar dos compromissos globais estabelecidos pela Agenda 2030 e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), particularmente o ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, essas estatísticas têm piorado nos últimos anos, principalmente após a pandemia da COVID-19 (ibidem, 2023).
Neste contexto, é necessário discutir a adoção do veganismo como uma escolha que pode ir além do âmbito individual e se configurar também como uma questão de justiça alimentar. É fundamental debater essa alternativa em um cenário global de enorme disparidade na distribuição de alimentos já que, enquanto a produção mundial prioriza a nutrição animal para consumo humano, 10% da população do planeta enfrenta a fome.
É importante enfatizar que essa situação não é devido à escassez de produtos, mas sim à desigualdade. Embora haja alimentos em abundância no planeta, sua distribuição desigual resulta em milhões de pessoas passando fome. Para ilustrar essa questão, tem-se que a criação de animais para consumo utiliza 83% das terras agrícolas do mundo, mas fornece apenas 37% das proteínas e 18% das calorias consumidas globalmente (POORE; NEMECEK, 2018).
De acordo com dados da National Geographic Magazine (2024), somente 55% das calorias produzidas pelas plantações mundiais alimentam diretamente as pessoas, enquanto o restante é usado na alimentação de animais para consumo. Além disso, para cada 100 calorias (kcal.) de grãos fornecidas aos animais, obtêm-se cerca de 40 kcal. de leite, 22 kcal. de ovos, 12 kcal. de frango, 10 kcal. de porco e 3 kcal. de carne bovina (ibidem, 2024). Portanto, este processo é extremamente ineficiente. Assim, a adoção de uma alimentação à base de plantas, além de ser muito mais eficaz do ponto de vista energético, também proporciona melhores resultados à saúde do que as dietas à base de animais (BANSAL, 2018).
Do ponto de vista ambiental, o uso excessivo de recursos naturais na pecuária está esgotando a disponibilidade de água e solo necessários para o cultivo de alimentos em países com populações desnutridas (UNEP, 2020). A pecuária também é uma grande responsável pelas emissões de gases de efeito estufa, representando 18% das emissões globais. Além disso, é a principal contribuinte para a conversão de habitats e perda de biodiversidade (INTERNATIONAL AID FOR THE PROTECTION AND WELFARE OF ANIMALS, 2022).
Ao diminuir o consumo de alimentos de origem animal e optar por alimentos veganos, a terra usada para cultivo de ração e pasto poderia ser efetivamente utilizada para plantações, capazes de alimentar mais pessoas (SIGLER et al., 2017). Isso se torna especialmente relevante em um momento em que projeções globais apontam que, até 2050, a população mundial aumentará em 2 bilhões de pessoas (UNITED NATIONS, 2023). Somado a isso, pesquisas indicam que a demanda por alimentos de origem animal, como carne e laticínios, deve crescer quase 70% entre 2010 e 2050, com a maior parte da demanda vindo de países em desenvolvimento (WORLD RESOURCES INSTITUTE, 2019). Levando em consideração que a carne bovina requer 20 vezes mais terra e emite 20 vezes mais gases de efeito estufa por grama de proteína comestível do que proteínas vegetais comuns, como feijão, ervilhas e lentilhas (WORLD RESOURCES INSTITUTE, 2018), uma mudança no padrão alimentar mundial se mostra urgente.
Do ponto de vista ético, a exploração animal para o consumo humano também levanta sérios questionamentos sobre o sofrimento e morte de bilhões de animais anualmente. Somado a isso, há a questão do descaso com trabalhadores do setor, já que existe uma notável relação entre a indústria da carne e o trabalho escravo contemporâneo no Brasil, que é o maior exportador de carne bovina do mundo (REPÓRTER BRASIL, 2021). E, por fim, há a fome e insegurança alimentar imposta a uma grande parte da população mundial, que deixa de ter acesso a alimentos em detrimento da nutrição de animais para consumo.
Diante dessa realidade, a adoção de uma alimentação vegana, juntamente com iniciativas governamentais que incentivem tal transição, surge como uma solução viável e urgente para promover a justiça alimentar e alcançar o ODS 2. Em suma, uma mudança global na alimentação, focada em produtos vegetais nutritivos e acessíveis, tem o potencial de combater a desigualdade na distribuição de alimentos, contribuir para um uso mais sustentável dos recursos naturais e garantir segurança alimentar e saúde para todos.
Autora: Julia Lopes
Referências Bibliográficas:
ACTION AGAINST HUNGER. 10 facts about world hunger, 2023. Disponível no link, acesso em mar. 2024.
BANSAL, A. A medical case for a whole food, plant-based diet. Disponível no link, acesso em 30 mai. 2018.
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). The State of Food Security and Nutrition in the World, 2023. Disponível no link, acesso em mar. 2024.
INTERNATIONAL AID FOR THE PROTECTION AND WELFARE OF ANIMALS. The Environmental Cost of Animal Agriculture. Disponível no link, acesso em 5 ago. 2022.
NATIONAL GEOGRAPHIC MAGAZINE. Feeding 9 billion, 2024. Disponível no link, acesso em mar. 2024
POORE, J.; NEMECEK, T. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. In: Science 360, 987–992, 2018.
REPÓRTER BRASIL. Trabalho escravo na indústria da carne, 2021. Disponível no link, acesso em mar. 2024.
SIGLER, J. et al. Animal-based agriculture Vs. Plant-based agriculture. A multi-product data comparison, 2017. Disponível no link, acesso em mar. 2024.
UN ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). 10 things you should know about industrial farming. Disponível no link, acesso em 20 jul. 2020.
UNITED NATIONS. Global issues – Population, 2023. Disponível no link, acesso em mar. 2024.
WORLD RESOURCES INSTITUTE. How to Sustainably Feed 10 Billion People by 2050, in 21 Charts. Disponível no link, acesso em 5 dez. 2018.
WORLD RESOURCES INSTITUTE. Creating a Sustainable Food Future. Disponível no link, acesso 19 jul. 2019.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 busca assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades. No entanto, a prevalência de uma dieta rica em alimentos de origem animal se caracteriza como um obstáculo significativo para o alcance dessa meta, exigindo reflexões e ações urgentes.
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) representam um dos maiores desafios à saúde pública global no século XXI. Entre as principais DCNTs estão hipertensão, diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, entre outras. Essas doenças impactam significativamente a qualidade de vida e acarretam altos custos para os sistemas de saúde. Hábitos alimentares inadequados são um dos principais fatores de risco para o surgimento e agravamento de tais condições. Um estudo recente publicado por pesquisadores da USP revela que, no Brasil, cerca de 57 mil mortes prematuras (ou seja, mortes de pessoas de 30 a 69 anos) por ano são atribuíveis à má alimentação, o que representa 10,5% das mortes totais e 22% das mortes por DCNTs no país (NILSON et al., 2022).
Diversos estudos científicos confirmam a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados de baixa qualidade nutricional – geralmente com alto teor de açúcares, gorduras trans, sódio e aditivos alimentares – e o aumento do risco de DCNTs (LANE et al., 2021, RAUBER et al., 2018). A ingestão elevada de gorduras saturadas, provenientes principalmente de alimentos de origem animal, além do consumo de carne vermelha e processada também são prejudiciais pois aumentam as chances de diabetes tipo 2, doenças cardíacas, hipertensão, infartos, alguns tipos de câncer e morte precoce. Em consonância com as evidências científicas, em 2018 a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classificou carnes vermelhas e processadas como cancerígenas. Por outro lado, uma alimentação baseada em vegetais está ligada a um estilo de vida mais saudável e à redução do risco de doenças crônicas (ALEIXO et al., 2020).
A UNEP (2023) apontou que há uma tendência global de consumo de alimentos prejudiciais à saúde, já que dietas tradicionais, baseadas em alimentos naturais e pouco processados, estão sendo cada vez mais substituídas por dietas ricas em alimentos ultraprocessados de baixa qualidade nutricional, causando impactos alarmantes para a saúde humana e o meio ambiente. Este fenômeno está associado à globalização e à intensificação dos sistemas alimentares, juntamente com a urbanização, o crescimento econômico e a expansão de mercados controlados por corporações transnacionais. Como consequência, observamos a prevalência de uma dieta ‘ocidentalizada’, caracterizada pelo alto consumo de alimentos de origem animal, produtos ultraprocessados, grãos refinados, açúcares e gorduras (ibidem, 2023).
Diante dessa realidade preocupante, é essencial incentivar dietas mais saudáveis e sustentáveis que minimizem o consumo desses alimentos. Nesse sentido, a adoção de uma alimentação vegana surge como uma medida promissora para garantir a saúde da população e do meio ambiente, alinhando-se ao ODS 3 – Saúde e Bem-Estar ao prevenir uma série de doenças e garantir um meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Vale ressaltar que o consumo de animais, além de estar associado a doenças crônicas não transmissíveis, gera diversos outros impactos negativos à saúde humana e ao meio ambiente. Isso ocorre já que os animais frequentemente são confinados em condições de superlotação e insalubres (HUMANE FOUNDATION, 2024). Tais circunstâncias, juntamente com as alterações do uso do solo resultantes da pecuária, promovem a propagação de uma série de doenças zoonóticas. Essa situação, evidenciada por pandemias como a gripe suína, gripe aviária e a COVID-19, afeta seriamente o bem-estar social e demonstra que a saúde humana está fortemente ligada à saúde animal e ao nosso ambiente compartilhado. Portanto, o consumo de animais, a exploração da vida selvagem e o desmatamento ameaçam seriamente a saúde e o bem-estar humano e planetário (CENTER FOR BIOLOGICAL DIVERSITY, 2024).
Importante enfatizar que a pecuária afeta a saúde humana também por meio da contaminação dos recursos hídricos. A agricultura é o setor que mais consome água, representando cerca de 70% de toda a água utilizada no mundo (WORLD BANK, 2022). Deste total, estima-se que a produção de carnes e laticínios seja responsável por aproximadamente 40% das demandas de água da agricultura (HEINKE et al., 2020). Os resíduos animais, bem como os fertilizantes e agrotóxicos usados nas plantações que os alimentam, são repletos de substâncias que escoam para corpos hídricos, o que resulta na poluição de lençóis freáticos e afeta a disponibilidade de água limpa (BURCH et al., 2021). Além de poluição, este fenômeno desencadeia um processo chamado eutrofização, que conduz à formação de “zonas mortas” – áreas onde a vida aquática é praticamente inexistente. A razão para isso são nutrientes como o nitrogênio e o fósforo, que aceleram o crescimento de florações de algas nocivas. Estas algas consomem o oxigênio da água, tornando-a inóspita para a maioria das formas de vida aquática (FAO, 2018). Tal situação coloca em risco a vida de milhões de pessoas que dependem do mar como fonte de renda.
A poluição do ar gerada pela pecuária é outra fonte de preocupação à saúde humana e ao planeta. Responsável por 14,5 a 20% das emissões globais totais, a pecuária é uma das principais responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa (UNEP, 2023). A transição para dietas à base de plantas poderia reduzir as emissões de GEE relacionadas à alimentação em 49% (ibidem, 2023). Não por acaso, pesquisas recentes afirmam que o consumo de leguminosas em detrimento de alimentos de origem animal é uma forma eficiente de reduzir substancialmente as emissões de GEE e combater as mudanças climáticas (HARWATT et al., 2017).
A resistência a antibióticos se configura como outra grave ameaça à saúde humana que está associada ao consumo de animais (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2022). O uso contínuo de antibióticos em animais de fazendas industriais (bem como em peixes na piscicultura em lagoas abertas) está levando ao surgimento de uma série de bactérias resistentes, tornando tratamentos comuns com antibióticos ineficazes. A pecuária industrial intensiva faz uso rotineiro de altos níveis de antibióticos, sendo que 75% da produção mundial deste medicamento destina-se à pecuária. Animais, incluindo suínos e frangos, são submetidos ao uso indiscriminado e irresponsável de antibióticos para promover crescimento acelerado e ocultar problemas de bem-estar animal. Como resultado, aproximadamente 1,27 milhão de pessoas morrem anualmente de infecções resistentes a antibióticos. Estima-se que este número aumente para 10 milhões até 2050 (WORLD ANIMAL PROTECTION, 2022).
Na contramão do alto consumo de alimentos ultraprocessados e de origem animal estão as regiões denominadas “Zonas Azuis”, áreas onde as pessoas têm maior expectativa de vida e, na média, vivem com boa saúde (KASSAM et al., 2021). Atualmente, existem cinco Zonas Azuis: Loma Linda na Califórnia, Ikaria na Grécia, a ilha da Sardenha, Okinawa no Japão e a Península de Nicoya na Costa Rica. Essas regiões compartilham uma série de fatores de estilo de vida comuns. Em relação à dieta, eles seguem predominantemente uma alimentação à base de plantas, composta por frutas, vegetais, legumes, grãos integrais, nozes e sementes minimamente processados. Nessas regiões, alimentos derivados de animais são consumidos raramente (ibidem, 2021).
Fica claro, portanto, que a saúde e o bem-estar dos animais, das pessoas e do planeta são interdependentes. A precariedade da saúde animal e do bem-estar na pecuária industrial intensiva afeta negativamente a saúde pública, a segurança alimentar e o meio ambiente. Logo, para alcançar e promover o ODS 3 – Saúde e Bem-estar, a adoção de uma alimentação vegana é uma estratégia crucial. Esta medida combate doenças crônicas, promove a sustentabilidade, preserva a biodiversidade e garante a saúde e a dignidade dos seres humanos e dos animais.
Autora: Julia Lopes
Referências Bibliográficas:
ALEIXO, M. Controle e redução de doenças crônicas não transmissíveis através da dieta à base de plantas: uma revisão abrangente. In: Alimentos: Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, v.2(6), jun. 2021.
BURCH, T. et al. Quantitative Microbial Risk Assessment for Contaminated Private Wells in the Fractured Dolomite Aquifer of Kewaunee County, Wisconsin. In: Environmental Health Perspectives, v. 129, issue 6, jun. 2021.
CENTER FOR BIOLOGICAL DIVERSITY. How Wildlife Exploitation And Habitat Loss Fuel Pandemic Risk. Disponível no link, acesso em abr. 2024.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. About Antimicrobial Resistance, 2022. Disponível no link, acesso em abr. 2024.
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). More people, more food, worse water? a global review of water pollution from agriculture. Rome, 2018. Disponível no link, acesso em abr. 2024.
HARWATT, H. et al. Substituting beans for beef as a contribution toward US climate change targets. In: Climatic Change v. 143, p. 261–270, 2017.
HEINKE, J. et al. Water Use in Global Livestock Production—Opportunities and Constraints for Increasing Water Productivity. In: AGU Advancing Earth and Space Sciences. v. 56, issue 12., p. 1-16, nov. 2020.
HUMANE FOUNDATION. Enfrentando a carnificina: as realidades da pecuária industrial e do sofrimento animal. Disponível no link, acesso em abr. 2024.
KASSAM, S. et al. Healthy diets as a guide to responsible food systems. In: Rethinking Food and Agriculture. Woodhead Publishing, 2021. Disponível no link, acesso em abr. 2024.
LANE, M. et al. Ultraprocessed food and chronic noncommunicable diseases: A systematic review and meta-analysis of 43 observational studies. In: Obes Rev, 22(3), mar. 2021.
NILSON, E. et al. Premature Deaths Attributable to the Consumption of Ultraprocessed Foods in Brazil. In: American Journal of Preventive Medicine, v. 64, p. 129-136, jan. 2023.
RAUBER, F. et al. Ultra-Processed Food Consumption and Chronic Non-Communicable Diseases-Related Dietary Nutrient Profile in the UK (2008–2014). In: Nutrients. 10(5), 2018.
THE WORLD BANK. Water in Agriculture. Disponível no link, acesso em abr. 2024.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (2023). What’s Cooking? An assessment of the potential impacts of selected novel alternatives to conventional animal products. Nairobi. Disponível no link.
WORLD ANIMAL PROTECTION. Pecuária industrial intensiva: fábrica de bactérias multirresistentes, 2022. Disponível no link, acesso em abr. 2024.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 busca garantir uma educação de qualidade que seja inclusiva e equitativa para todos, promovendo oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Contudo, a exploração animal, que é profundamente enraizada em nossa sociedade, apresenta obstáculos significativos para atingir esse objetivo.
Um dos principais desafios para alcançar o ODS 4 é o trabalho infantil. Em comunidades que dependem de atividades agropecuárias, crianças são frequentemente retiradas da escola para trabalhar no campo, seja cultivando produtos para o gado ou cuidando diretamente dele, comprometendo assim seu acesso à educação. Isso limita suas oportunidades de desenvolvimento e perpetua o ciclo da pobreza (FAO, 2022).
Dados da FAO (2020) mostram que, em nível global, o setor agrícola concentra a maior parte do trabalho infantil (71%), com cerca de 108 milhões de crianças envolvidas na produção de culturas, pecuária, silvicultura, pesca ou aquicultura. No Brasil, a cadeia produtiva da agropecuária absorve diretamente o trabalho de mais de um milhão de crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos (TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 12ª REGIÃO, 2019). Este número equivale a 30% da população ocupada nesta faixa etária (3,3 milhões). Dentre as principais atividades econômicas dos estabelecimentos agropecuários onde há crianças e adolescentes com menos de 14 anos trabalhando, destacam-se as atividades da pecuária e criação de outros animais, com 46,8% (FNPETI, 2020). Ou seja, a criação de animais para consumo contribui para o trabalho infantil e prejudica o acesso à educação de qualidade.
Por outro lado, notamos a perpetuação de um modelo educacional que reforça a exploração animal. A educação tradicional muitas vezes apresenta uma visão especista, na qual animais são considerados seres inferiores, vistos como meros recursos ou ferramentas que estariam à disposição do ser humano. Esta perspectiva normaliza a exploração animal e impede o desenvolvimento de uma relação ética e compassiva com seres não-humanos.
Estudos indicam que crianças e animais compartilham uma compaixão instintiva inerente (SEPPÄLÄ, 2013). No entanto, influências culturais podem entrar em conflito com essa compaixão e empatia inatas das crianças, levando ao aprendizado de uma indiferença moral seletiva para com seres não-humanos (WILKS et al., 2020). Além disso, nas escolas, a ausência de conteúdos que abordem os impactos da exploração animal no meio ambiente e na saúde humana perpetua a ignorância sobre o tema. Esta lacuna educacional impede o desenvolvimento de um senso crítico sobre as relações que mantemos com os animais.
Nesse contexto, o veganismo se apresenta como uma poderosa ferramenta para transformar a educação e alcançar o ODS 4. Os benefícios do veganismo para a educação se relacionam à promoção de uma educação ética e compassiva que exalta valores como a empatia e o respeito por todos os seres vivos, preparando os alunos para serem cidadãos conscientes e engajados na construção de um mundo melhor, mais justo e menos violento.
Autora: Julia Lopes
Referências Bibliográficas:
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION – FAO. Dia Mundial contra o Trabalho Infantil: Fortalecendo os Esforços para Prevenir o Aumento do Trabalho Infantil na Agricultura. Disponível no link, acesso em 16 jun. 2020.
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION – FAO. FAO adds voice to calls for an end to child labour in agriculture. Disponível no link, acesso em 17 mai. 2022.
FÓRUM NACIONAL DE PREVENÇÃO E ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL – FNPETI. O trabalho infantil na agropecuária brasileira: uma leitura a partir do Censo Agropecuário de 2017. Disponível no link, acesso em março de 2020.
SEPPÄLÄ, E. Compassion: Our First Instinct. Science shows that we are actually wired for compassion, not self-interest. Disponível no link, acesso em 3 jun. 2013.
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 12ª REGIÃO. Agropecuária utiliza trabalho direto de um milhão de crianças e adolescentes, aponta estudo inédito. Disponível no link, acesso em 19 nov. 2019.
WILKS, M. et al. Children Prioritize Humans Over Animals Less Than Adults Do. Psychological Science, 32(1), 27-38. Disponível no link.
O Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 5 busca alcançar a igualdade de gênero e empoderar mulheres e meninas, erradicando todas as formas de discriminação e violência contra mulheres. Contudo, a luta por um mundo mais justo, igualitário e sem violência de gênero vai além das relações humanas, passando também pelo bem-estar dos animais não-humanos. Ao examinarmos as raízes do sexismo e da exploração animal, encontramos paralelos que revelam como formas de opressão e violência contra mulheres e contra animais estão entrelaçadas.
Isso ocorre porque tanto o sexismo quanto o especismo se baseiam na mesma lógica de dominação. Ou seja, ambos se fundamentam na hierarquização arbitrária de um grupo sobre outro. No sexismo, os homens se colocam em uma posição superior às mulheres, justificando a discriminação, a subordinação e a violência. No especismo, os seres humanos se posicionam no topo da hierarquia das espécies, legitimando o uso e o sofrimento dos animais para seus próprios interesses. Nessa lógica, os animais deixam de ser sujeitos com subjetividade que existem por razões próprias e passam a ser vistos como objetos que existem única e exclusivamente para o ser humano (KO, 2014).
Essa lógica de dominação se manifesta de forma cruel na objetificação, que “consiste em analisar um indivíduo a nível de objeto, sem considerar seu emocional ou psicológico” (BELMIRO et al., 2015). Ou seja, é a redução de um indivíduo à condição de objeto que, teoricamente, poderia ser utilizado para o prazer ou benefício de um grupo específico. No caso das mulheres, a cultura patriarcal transforma seus corpos em objetos de desejo, fazendo com que sua aparência importe mais do que diversos outros aspectos que as definem enquanto indivíduos (LIMA, 2016). Já os corpos de animais são vistos como meras ferramentas para a produção de alimentos, lucro, pesquisa, ou mesmo entretenimento, sendo constantemente submetidos a condições precárias, sofrimento e morte prematura.
A indústria de laticínios expõe de forma clara a interconexão entre sexismo e especismo. As vacas leiteiras são constantemente inseminadas artificialmente para engravidar, separadas de seus filhotes logo após o nascimento e confinadas em ambientes precários e, muitas vezes, insalubres. Essa realidade brutal não apenas causa imenso sofrimento aos animais, mas também reforça a objetificação e a dominação dos corpos femininos. Portanto, apoiar e consumir produtos desta indústria enquanto lutamos contra a cultura de violência de gênero é contraditório.
Complementarmente, a crueldade contra animais e a violência contra pessoas têm algo em comum: ambas as vítimas são seres vivos, capazes de sentir dor e experimentar sofrimento. Não por acaso, conforme apontado por Hodges (2008), já foi estabelecida uma correlação entre o abuso de animais, a violência familiar e outras formas de violência comunitária. Diversas pesquisas indicam que pessoas que cometem atos de crueldade contra animais raramente se limitam a isso. Pessoas que abusam de seus cônjuges ou filhos frequentemente já causaram danos a animais no passado. Logo, pessoas que maltratam animais podem também representar uma ameaça para outros seres humanos. Um estudo de 2017 mostrou que 89% das mulheres que possuíam animais de companhia durante um relacionamento abusivo relataram que seus animais foram ameaçados, prejudicados ou mortos por seu parceiro abusivo (BARRETT et al., 2020). Não por acaso, muitos abrigos de violência doméstica aceitam cães e outros animais de companhia. Está provado que as mulheres tendem a não deixar seus parceiros abusivos se elas não podem levar seus companheiros animais com elas, pois temem pela vida de seus animais de estimação.
Ao reconhecer essas conexões, o veganismo se transforma em mais do que uma simples escolha alimentar, tornando-se um posicionamento ético crucial na luta por um mundo mais justo para animais humanos e não-humanos. O veganismo, ao se recusar a participar da exploração animal, se torna uma ferramenta poderosa na construção de um mundo mais justo e igualitário para todos os seres sencientes.
Referências bibliográficas:
BARRETT, B. et al. Animal Maltreatment as a Risk Marker of More Frequent and Severe Forms of Intimate Partner Violence. In: J Interpers Violence. 35(23-24), p. 5131 – 5156, 2020. doi: 10.1177/0886260517719542.
BELMIRO, D. et al. Empoderamento ou Objetificação: Um estudo da imagem feminina construída pelas campanhas publicitárias das marcas de cerveja Devassa e Itaipava. In: XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Rio de Janeiro, 2015. Disponível em <https://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10-1863-1.pdf>, acesso em jun. 2024.
HODGES, C. The Link: Cruelty to Animals and Violence Towards People. In: Michigan State University College of Law, 2008. Disponível em <https://www.animallaw.info/article/link-cruelty-animals-and-violence-towards-people>, acesso em jun. 2024.
KO, A. 5 Reasons Why Animal Rights Are A Feminist Issue. In: Everyday Feminism. Disponível em <https://everydayfeminism.com/2014/12/animal-rights-feminist-issue/> 30 dez. 2014.
LIMA, I. O que é objetificação da mulher? In: Politize! Disponível em <https://www.politize.com.br/o-que-e-objetificacao-da-mulher/> 11 fev. 2016.
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 busca assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todas e todos (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2025). Garantir água limpa e saneamento adequado é um pilar para a saúde pública, a dignidade humana e a proteção ambiental. No entanto, o sistema alimentar predominante, baseado na produção animal, representa um entrave relevante para o alcance dessa meta, tanto pelo consumo excessivo de água quanto pela poluição generalizada dos recursos hídricos.
A atividade agropecuária representa 92% da pegada hídrica mundial (HOEKSTRA; MEKONNEN, 2012). Esta pegada hídrica é um indicador que mede o volume total de água doce utilizada, direta e indiretamente, na produção de bens e serviços ou pelo consumo de pessoas, comunidades e empresas. Da demanda hídrica agrícola, pesquisas indicam que aproximadamente 40% é destinada à produção de carne e laticínios (HEINKE et al., 2020). Portanto, a pecuária constitui uma das atividades humanas com maior consumo de água no planeta.
A análise da pegada hídrica de diferentes alimentos revela a dimensão do problema: a carne bovina pode consumir mais de 15.000 litros de água por quilograma (MEKONNEN; HOEKSTRA, 2010a). Em comparação, leguminosas necessitam menos de 4.000 litros de água por quilograma em média (MEKONNEN; HOEKSTRA, 2010b). Essa grande diferença ocorre principalmente devido à enorme quantidade de água usada para irrigar as lavouras de grãos destinadas à alimentação animal.
Além disso, a pecuária representa uma importante fonte de contaminação hídrica, afetando a qualidade e segurança da água. Os dejetos de fazendas industriais, com alta concentração de nitrogênio, fósforo e patógenos como E. coli e Salmonella, escorrem para rios e lagos, provocando a eutrofização, ou seja, um processo onde algas se proliferam, consomem o oxigênio disponível e criam “zonas mortas” aquáticas. Esta poluição aumenta os custos e a complexidade do tratamento da água para consumo humano, sobrecarregando os sistemas de saneamento.
Outro grave problema é a contaminação química. O uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras de ração polui os corpos d’água com substâncias tóxicas. Adicionalmente, a utilização massiva de antibióticos na pecuária, seja para tratar doenças ou para promover o crescimento acelerado dos animais, tornou-se uma das principais causas da resistência antimicrobiana, uma crise de saúde pública global segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses fármacos não são totalmente metabolizados pelos animais e são excretados no ambiente, contaminando o solo e a água e transformando ecossistemas em incubadoras de “superbactérias” (WORLD ANIMAL PROTECTION, 2022).
Nesse contexto, o veganismo surge como uma solução sistêmica e eficaz. A adoção de uma alimentação baseada em vegetais reduz drasticamente a pegada hídrica individual e coletiva. Estudos indicam que uma transição global para uma alimentação vegana poderia diminuir o uso de água na produção de alimentos em até 54% (SCARBOROUGH et al., 2023). Ao mesmo tempo, essa mudança atua diretamente na prevenção da poluição, eliminando a principal fonte de dejetos animais, reduzindo a demanda por agrotóxicos e freando o uso indiscriminado de antibióticos na agropecuária.
Portanto, promover sistemas alimentares baseados em vegetais é uma estratégia fundamental e indispensável para aliviar a pressão sobre os recursos hídricos, garantir a qualidade da água e acelerar o cumprimento do ODS 6. É uma escolha que impacta positivamente a saúde do planeta e assegura o direito à água potável e ao saneamento para todos.
Referências Bibliográficas:
HEINKE, J. et al. Water Use in Global Livestock Production—Opportunities and Constraints for Increasing Water Productivity. In: Water Resources Research, v. 56, n.12, 2020. https://doi.org/10.1029/2019WR026995
HOEKSTRA, A. Y.; MEKONNEN, M.M. The water footprint of humanity. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 109 (9) 3232-3237, 2012. https://doi.org/10.1073/pnas.1109936109.
MEKONNEN, M. M.; HOEKSTRA, A. Y. The green, blue and gray water footprint of farm animals and animal products. Research Report Series n. 48. 2010a. Disponível em: https://www.waterfootprint.org/resources/Report-48-WaterFootprint-AnimalProducts-Vol1.pdf. Acesso: ago. 2025.
MEKONNEN, M. M.; HOEKSTRA, A. Y. The green, blue and grey water footprint of crops and derived crop products. Volume 1: Main Report, 2010b. Disponível em: https://www.waterfootprint.org/resources/Report47-WaterFootprintCrops-Vol1.pdf Acesso: ago. 2025.
NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6: Água Potável e Saneamento. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/6. Acesso: ago.. 2025.
SCARBOROUGH, P. et al. Vegans, vegetarians, fish-eaters and meat-eaters in the UK show discrepant environmental impacts. In: Nature Food, volume 4, 565–574, 2023. https://doi.org/10.1038/s43016-023-00795-w
WORLD ANIMAL PROTECTION. Pecuária industrial intensiva: fábrica de bactérias multirresistentes, 2022. Disponível em https://www.worldanimalprotection.org.br/siteassets/documents/sistemas-alimentares/relatorio-pecuariaindustrial-intensiva-fabrica-de-bacterias-multirresistentes.pdf. Acesso: ago. 2025.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7 da Agenda 2030 visa assegurar o acesso universal a serviços de energia modernos, aumentar a participação de fontes renováveis e duplicar a eficiência energética (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2015). No debate público e político, o foco para alcançar essas metas recai sobre os setores de transporte e a geração de eletricidade. Contudo, há um terceiro pilar, frequentemente subestimado, mas de impacto profundo: o sistema alimentar global.
Dentro deste sistema, a pecuária industrial emerge como um dos subsetores mais energeticamente intensivos. O modelo alimentar hegemônico, baseado na exploração animal, constitui uma barreira estrutural à concretização do ODS 7. Em contrapartida, a transição para uma alimentação baseada em plantas é uma estratégia sistêmica para reduzir a demanda energética e liberar os recursos necessários para uma transição energética limpa, justa e em larga escala.
A pecuária moderna é estruturalmente dependente da economia dos combustíveis fósseis. O consumo direto de energia inclui o diesel para maquinário e transporte, além da eletricidade para climatização de instalações e sistemas de ordenha (VEERMÄE et al., 2012). No Brasil, os combustíveis fósseis, em especial o diesel, respondem por 73% da energia consumida diretamente na agropecuária (FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, 2024). Adicionalmente, a logística de transporte de animais vivos e de seus insumos consome enormes quantidades de combustíveis fósseis. Frequentemente, a ração é produzida em um continente para alimentar animais em outro, e os próprios animais são transportados por longas distâncias por via terrestre e marítima, um processo energeticamente intensivo.
O consumo indireto do setor, ou “energia embutida”, é ainda mais expressivo, destacando-se na produção de fertilizantes nitrogenados sintéticos para ração. A síntese de amônia pode consumir entre 3% e 5% de toda a produção global de gás natural (HEINRICH-BÖLL-STIFTUNG, 2022). Esse processo transforma combustíveis fósseis em insumos agrícolas que sustentam um sistema alimentar insustentável (CENTER FOR INTERNATIONAL ENVIRONMENTAL LAW, 2022). A ineficiência biológica de alimentos de origem animal agrava o quadro: para cada 100 quilocalorias de grãos fornecidas aos animais, obtêm-se, em média, apenas 3 kcal de carne bovina, 10 kcal de carne de porco e 12 kcal de carne de frango, desperdiçando a vasta energia fóssil investida (FOLEY, 2024).
Logo, a pecuária industrial, com sua dependência estrutural de combustíveis fósseis e sua ineficiência na conversão de recursos, representa um obstáculo fundamental ao progresso do ODS 7. Em contrapartida, a transição para uma alimentação baseada em plantas emerge como uma das estratégias mais eficazes e abrangentes para alinhar nosso sistema alimentar aos objetivos de um futuro energético limpo. A escolha por uma alimentação baseada em vegetais deixa de ser apenas um ato de consumo individual para se tornar uma ferramenta estratégica de política pública: uma ação tangível que indivíduos, comunidades e governos podem adotar para acelerar a transição para um futuro energético acessível, limpo e justo para todos.
Referências bibliográficas
CENTER FOR INTERNATIONAL ENVIRONMENTAL LAW. Fossils, Fertilizers, and False Solutions: How Laundering Fossil Fuels in Agrochemicals Puts the Climate and the Planet at Risk. 2022. Disponível em: https://www.ciel.org/reports/fossil-fertilizers/. Acesso em: 19 set. 2025.
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Agronegócio responde por 29% da energia renovável no Brasil, aponta estudo da FGV. Portal FGV, 2024. Disponível em: https://portal.fgv.br/noticias/agronegocio-responde-por-29-da-energia-renovavel-no-brasil-aponta-estudo-da-fgv. Acesso em: 21 set. 2025.
HEINRICH-BÖLL-STIFTUNG. Cresce o foco em sistemas alimentares baseados em combustíveis fósseis. Boell Brasil, 16 nov. 2022. Disponível em: https://br.boell.org/pt-br/2022/11/16/cresce-o-foco-em-sistemas-alimentares-baseados-em-combustiveis-fosseis. Acesso em: 21 set. 2025.
FOLEY, J. Feeding 9 Billion. National Geographic Magazine, 2024. Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/foodfeatures/feeding-9-billion/. Acesso em: 21 set. 2025.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em: 19 set. 2025.
VEERMÄE, I. et al. Energy consumption in animal production. Estonian University of Life Sciences, 2012. Disponível em: https://enpos.weebly.com/uploads/3/6/7/2/3672459/energy_consumption_in_animal_production.pdf. Acesso em: 21 set. 2025.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 busca promover crescimento econômico inclusivo, emprego pleno e trabalho decente para todos (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2024). Suas metas incluem a erradicação do trabalho forçado e a proteção dos direitos trabalhistas. Contudo, o sistema alimentar baseado na exploração animal representa um obstáculo estrutural a esse objetivo, perpetuando violações trabalhistas que não são falhas isoladas, mas características intrínsecas de um modelo focado na maximização do lucro.
A cadeia de produção de carnes, laticínios e ovos é marcada por condições que violam sistematicamente os princípios do trabalho decente, desde a criação dos animais até o abate. Os frigoríficos ilustram dramaticamente essa precarização. No Brasil, o setor de abate de animais lidera os índices de acidentes de trabalho (REPÓRTER BRASIL, 2024). O ritmo acelerado essencial para a lucratividade, os problemas ergonômicos, o ruído, as temperaturas extremas e a pouca ventilação são alguns dos fatores que resultam em taxas alarmantes de lesões por esforços repetitivos, mutilações e doenças incapacitantes. O impacto psicológico é igualmente devastador. Estudos demonstram que trabalhadores de matadouros apresentam taxas significativamente elevadas de depressão e ansiedade (MERCY FOR ANIMALS, 2022; SLADE; ALLEYNE, 2022). Essas condições não são acidentais, mas sim decorrem diretamente de um modelo que exige alta velocidade e minimização dos custos trabalhistas.
A situação no setor pecuário agrava o cenário. Entre 1995 e 2022, o setor foi responsável por 46% de todos os trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão no Brasil (ENVIRONMENTAL JUSTICE FOUNDATION, 2023). Em fazendas remotas, trabalhadores vulneráveis são submetidos a jornadas exaustivas, condições degradantes e servidão por dívida. Na indústria pesqueira, relatos de trabalho forçado e tráfico de pessoas revelam trabalhadores presos em embarcações por longos períodos em condições desumanas (NOAA, 2020).
Além das violações trabalhistas, dados revelam que a pecuária brasileira ocupa 64% da área rural, mas contribui com apenas 17% do valor bruto da produção agrícola, ou seja, uma produtividade extremamente baixa (BARRETO; PEREIRA, 2024). Em contraste, a agricultura familiar, ocupando 23% da área total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros, emprega 67% da mão de obra agrícola e é responsável pela renda de 40% da população economicamente ativa, sendo muito mais eficiente na geração de empregos (EMBRAPA, 2019).
Logo, a transição para um sistema alimentar baseado em plantas alinha crescimento econômico com justiça social. O mercado à base de plantas está em expansão, impulsionando inovação, atraindo investimentos e criando oportunidades de negócio. Não por acaso, modelos econômicos indicam criação líquida de empregos com essa transição (FAUNALYTICS, 2024), já que os empregos perdidos na pecuária e frigoríficos (perigosos e psicologicamente danosos) poderiam ser substituídos por postos mais seguros, qualificados e bem remunerados em biotecnologia, engenharia de alimentos e agricultura regenerativa. Trata-se de uma troca de trabalho precário por trabalho decente. Essa transição fortaleceria a agricultura familiar e promoveria práticas que regeneram o meio ambiente, criando empregos de melhor qualidade no campo.
As evidências demonstram que a indústria de produção animal é estruturalmente incompatível com as aspirações do ODS 8. A escolha por uma alimentação vegana impulsiona um setor econômico inovador, com potencial para gerar empregos de qualidade e promover uma agricultura que valoriza a dignidade humana. Para que essa mudança se concretize de forma justa, é imperativo que políticas públicas de transição justa sejam implementadas, apoiando os trabalhadores e as comunidades dependentes da pecuária com requalificação profissional e incentivos para a conversão de suas atividades. A responsabilidade é compartilhada entre consumidores, Estado e empresas para construir um sistema alimentar onde o trabalho decente seja a realidade, não a exceção.
Referências bibliográficas
BARRETO, P.; PEREIRA, R. Lições da Expansão da Pecuária Bovina no Brasil (2000-2023) para uma Produção Sustentável e Eficiente. Amazônia 2030, Fevereiro 2024. Disponível em: https://imazon.org.br/wp-content/uploads/2025/03/Licoes-da-expansao-da-pecuaria-bovina-no-Brasil.pdf. Acesso em: out. 2025.
BEYOND CRUELTY. SDG8-Economic Growth. 2023. Disponível em: https://beyondcruelty.org/sdg8-economic-growth/. Acesso em: out. 2025.
CNTA. CNTA alerta para a proteção de gestantes em frigoríficos. 2023. Disponível em: https://radiopeaobrasil.com.br/cnta-alerta-para-a-protecao-de-gestantes-em-frigorificos/. Acesso em: 10 out. 2025.
EMBRAPA. Agricultura Familiar. 2019. Disponível em: https://www.embrapa.br/tema-agricultura-familiar/sobre-o-tema. Acesso: out. 2025.
ENVIRONMENTAL JUSTICE FOUNDATION. Trabalho escravo no setor pecuarista: o caso de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Novembro 2023. Disponível em: https://ejfoundation.org/resources/downloads/Trabalho-escravo-no-setor-pecuarista-o-caso-de-Mato-Grosso-e-Mato-Grosso-do-Sul.pdf. Acesso em: out. 2025.
FAUNALYTICS. The Economic Impacts of a Shift to Plant-Based Foods in the United States. 2024. Disponível em: https://faunalytics.org/plant-based-economic-impacts/. Acesso em: 10 out. 2025.
MERCY FOR ANIMALS. Trabalhadores de frigoríficos têm três vezes mais depressão. 2022. Disponível em: https://mercyforanimals.org.br/blog/trabalhadores-de-frigorificos-tem-tres-vezes-mais-depressao/. Acesso em: out. 2025.
NAÇÕES UNIDAS BRASIL. ODS 8: Trabalho Decente e Crescimento Econômico. 2024. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/8. Acesso em: out. 2025.
NOAA. Forced labor and the Seafood Supply Chain. 2020. Disponível em: https://www.fisheries.noaa.gov/international/international-affairs/forced-labor-and-seafood-supply-chain. Acesso em: out. 2025.
REPÓRTER BRASIL. Fábricas de acidentes: condições de trabalho insalubres e inseguras nos frigoríficos brasileiros. Julho 2024. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2024/07/Fabricas-de-acidentes.pdf. Acesso em: out. 2025.
SLADE, J.; ALLEYNE, E. The Psychological Impact of Slaughterhouse Employment: A Systematic Literature Review. Trauma, Violence, & Abuse, v. 24, n. 2, p. 429-440, 2021.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 9 da Agenda 2030 visa construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2024). Embora este ODS seja frequentemente associado a setores como transporte e telecomunicações, o sistema alimentar global também representa uma indústria extremamente relevante, tornando-o campo crítico para a concretização deste objetivo.
A pecuária industrial exemplifica o fracasso em atender às exigências do ODS 9. Utilizando 83% das terras agrícolas mundiais para fornecer apenas 18% das calorias globais (POORE; NEMECEK, 2018), o setor demanda uma vasta rede de infraestrutura para transportar ração e animais. Essa estrutura massiva foi construída para servir a um modelo industrial já ultrapassado, incompatível com as metas de sustentabilidade atuais. Além da ineficiência espacial, as cadeias de suprimentos de proteína animal são longas e frágeis. Essa fragilidade contrasta com sistemas alimentares localizados e descentralizados, que demonstraram resiliência superior durante crises (IPES-FOOD, 2022), evidenciando o fracasso da pecuária em atender à meta de construção de infraestruturas resilientes.
O ODS 9 também exige modernização industrial com eficiência de recursos e tecnologias limpas (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2024), mas a pecuária opera na direção oposta, gerando emissões significativas de gases de efeito estufa e poluição massiva por dejetos que contaminam recursos hídricos. Mais grave ainda é a atuação do complexo industrial da carne como obstáculo ativo à inovação. No Brasil, o lobby do setor tem sido eficaz em garantir isenções fiscais e blindar-se de tributação justa (WORLD ANIMAL PROTECTION, 2025), utilizando seu poder para “confundir e atrasar a regulamentação” de suas atividades prejudiciais (BEYOND CRUELTY, 2025). Quando o lobby da indústria da carne consegue subsídios governamentais, ele distorce a competição no mercado, reduzindo os incentivos para investimentos em alternativas mais sustentáveis e tecnologicamente avançadas.
Em contraste, o setor de proteínas alternativas representa a vanguarda da inovação industrial alinhada ao ODS 9, abrangendo desde produtos plant-based até agricultura celular e fermentação de precisão (THE GOOD FOOD INSTITUTE, 2024). No Brasil, o mercado plant-based apresentou crescimento de 42% em 2022 e faturamento próximo a R$1 bilhão (EUROMONITOR INTERNATIONAL, 2023). A transição da pecuária para proteínas alternativas representa um salto em eficiência. Essa nova infraestrutura pode ser descentralizada e localizada próxima aos centros de consumo, criando cadeias de suprimentos mais curtas e resilientes (IPES-FOOD, 2022).
Isso posto, tem-se que, enquanto o sistema pecuário obstrui o ODS 9, o ecossistema vegano funciona como motor para seu avanço. A promoção de um sistema produtivo baseado em vegetais transcende questões éticas e de saúde, configurando-se como estratégia de política industrial inteligente para modernizar a economia, criar empregos qualificados em biotecnologia e construir uma base industrial competitiva. Para acelerar essa transição, governos devem realocar subsídios da pecuária para pesquisa em proteínas alternativas, transformando a escolha vegana em um ato de fomento à indústria, à inovação e à infraestrutura essenciais para um planeta sustentável.
Referências Bibliográficas
BEYOND CRUELTY. SDG9 – Industry Infrastructure. 2025. Disponível em: https://beyondcruelty.org/sdg9-industry-infrastructure/. Acesso em: out. 2025.
EUROMONITOR INTERNATIONAL. The Good Food Institute Brasil. 2023. Apud FOOD CONNECTION. O mercado plant-based e tendências. Disponível em: https://www.foodconnection.com.br/alimentosebebidas/o-mercado-plant-based-e-tendencias/. Acesso em: out. 2025.
IPES-FOOD. Mercados locais e cadeias alimentares são fundamentais para enfrentar a crise global da fome. 2022. Disponível em: https://ipes-food.org/pt/mercados-locais-e-cadeias-alimentares-sao-fundamentais-para-enfrentar-a-crise-global-da-fome/. Acesso em: out. 2025.
NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 9: Indústria, Inovação e Infraestrutura. 2024. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/9. Acesso em: out. 2025.
POORE, J.; NEMECEK, T. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, v. 360, n. 6392, p. 987-992, 2018.
THE GOOD FOOD INSTITUTE BRASIL. Carne cultivada no Brasil em 2024: o que esperar após a regulamentação da Anvisa. 2024. Disponível em: https://gfi.org.br/carne-cultivada-no-brasil-em-2024/. Acesso em: out. 2025.
THE GOOD FOOD INSTITUTE. Proteínas Alternativas. Disponível em: https://gfi.org.br/en/. Acesso em: out. 2025.
WORLD ANIMAL PROTECTION. O lobby da carne e o preço da desinformação para a sociedade. 2025. Disponível em: https://www.worldanimalprotection.org.br/mais-recente/noticias/O-lobby-da-carne-e-o-preco-da-desinformacao-para-a-sociedade/. Acesso em: out. 2025.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 10 visa reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2024) e tem como uma de suas metas promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente de idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião ou status econômico. A desigualdade de renda é uma das facetas mais evidentes desse desafio: o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) aponta que, globalmente, os 10% mais ricos detêm até 40% da renda mundial, enquanto os 10% mais pobres ficam com apenas 2% a 7% (UNDP, [s.d.]).
Nesse contexto, o sistema alimentar hegemônico baseado na exploração animal funciona como motor e perpetuador dessas desigualdades, minando estruturalmente o ODS 10. A indústria da pecuária, aquicultura e laticínios é intrinsecamente desigual: depende de mão de obra com baixos salários, altos riscos à saúde e pressões psicológicas severas (RAMSIER, 2018). Essa exploração recai desproporcionalmente sobre os grupos mais vulneráveis. Em países desenvolvidos, matadouros e instalações de pecuária intensiva dependem fortemente de trabalhadores migrantes sem poder de reivindicar direitos ou compensação justa (CAPPS, 2019). Na indústria pesqueira, a situação é igualmente grave: denúncias frequentes apontam trabalho escravo, com trabalhadores aprisionados em embarcações sem representação ou direitos (FAIRPLANET, 2020; NOAA, [s.d.]).
A desigualdade também se manifesta na concentração de riqueza. Em diversos países, os subsídios agrícolas governamentais são frequentemente direcionados para grandes corporações do agronegócio em detrimento de pequenos agricultores locais (ANDRZEJEWSKI, 2018). Isso permite que grandes conglomerados monopolízem terras e oportunidades de emprego, esvaziando a riqueza das economias locais e deixando pouco para as comunidades rurais (LAKHANI, 2021).
A faceta mais perversa dessa desigualdade, porém, é a injustiça ambiental. As instalações de pecuária intensiva são sistematicamente alocadas em áreas de baixa renda, muitas vezes habitadas por minorias étnicas (HOPE-D’ANIERI, 2022). Essas comunidades marginalizadas são forçadas a arcar com o ônus da poluição do ar e da água gerada pela indústria, enfrentando problemas de saúde, estresse psicológico e perda do bem-estar (FOODPRINT, 2018; NICOLE, 2013).
Em escala global, essa dinâmica explora nações em desenvolvimento. A grilagem de terras para o plantio de ração animal e a abertura de pastagens desloca comunidades indígenas e camponesas de seus territórios (ANSEEUW; BALDINELLI, 2020; WEST et al., 2022). Paralelamente, indústrias poluentes como a do couro são terceirizadas para países com regulamentações frouxas, explorando mão de obra barata e deixando um rastro de contaminação (TARANTOLA, 2014).
Diante desse cenário, o veganismo oferece uma ferramenta poderosa para combater essas desigualdades ao propor uma reestruturação do sistema alimentar com foco em plantas. Ao reduzir drasticamente a demanda por terra para ração e pasto, um sistema alimentar baseado em plantas alivia a pressão sobre territórios indígenas e camponeses, abrindo espaço para a soberania alimentar e a agricultura familiar.
De forma mais direta, a transição para uma alimentação à base de plantas elimina a principal fonte de poluição que aflige desproporcionalmente as comunidades marginalizadas, configurando-se como medida concreta de justiça ambiental. Economicamente, essa transição fomenta um sistema alimentar que não depende da exploração sistêmica de trabalhadores vulneráveis em matadouros ou da exploração de pessoas na indústria pesqueira.
Torna-se evidente, portanto, que o modelo de produção animal é estruturalmente incompatível com as metas do ODS 10. A promoção de uma alimentação vegana, apoiada por políticas públicas, transcende a escolha individual, pois constitui também uma estratégia sistêmica essencial para desmantelar hierarquias de exploração e construir um futuro verdadeiramente justo e equitativo.
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Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 da Agenda 2030 visa “tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis” (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2024). No Brasil, onde 87% da população reside em áreas urbanas segundo o Censo de 2022 (IBGE, 2024), este objetivo é crítico. A crise urbana brasileira está intrinsecamente ligada ao modelo agroalimentar vigente: a exploração animal e a monocultura de grãos para ração atuam como motores de desigualdade territorial e intensificam a poluição atmosférica. Assim, a transição para o veganismo e sistemas alimentares baseados em vegetais representa não apenas uma escolha ética, mas uma estratégia indispensável de planejamento urbano e resiliência climática.
Para compreender a insustentabilidade urbana brasileira, é preciso olhar também para o campo. A concentração de terras para pecuária impulsiona diretamente o inchaço desordenado das metrópoles através do êxodo rural. O modelo do agronegócio voltado para commodities animais emprega pouca mão de obra e ocupa vastas extensões de território, expulsando a agricultura familiar e populações rurais para periferias urbanas, onde frequentemente se instalam em assentamentos precários (ELIAS; PEQUENO, 2007).
Dados recentes ilustram essa disparidade espacial: enquanto todas as áreas urbanizadas do Brasil ocupam cerca de 4,1 milhões de hectares, as pastagens ocupam mais de 164 milhões de hectares (MapBiomas, 2024a; 2024b). O espaço destinado ao gado é 40 vezes maior que aquele onde vivem 180 milhões de brasileiros. Globalmente, a pecuária ocupa 77% das terras agrícolas, mas fornece apenas 18% das calorias consumidas, evidenciando que a redução da demanda por carne liberaria terras para práticas mais sustentáveis, como restauração da biodiversidade (POORE; NEMECEK, 2018).
A resiliência urbana depende da manutenção dos ciclos hidrológicos, que estão sendo rompidos pelo desmatamento para pecuária. Grandes centros do Sudeste e Sul, como São Paulo, dependem da umidade transportada da Amazônia pelos chamados “Rios Voadores”. O desmatamento da floresta para criação de pasto interrompe esse fluxo, agravando crises hídricas e ameaçando o abastecimento de milhões de pessoas (NOBRE, 2014).
A produção animal também possui uma pegada hídrica desproporcional. Enquanto a carne bovina demanda até 15.000 litros de água por quilo, leguminosas e vegetais requerem apenas uma fração desse volume (MEKONNEN; HOEKSTRA, 2010). Em cenários de escassez, uma alimentação baseada em vegetais representa uma medida direta de conservação dos recursos hídricos.
O ODS 11 também visa reduzir o impacto ambiental per capita das cidades, especialmente quanto à qualidade do ar. Recentemente, cidades como Manaus e São Paulo foram sufocadas por fumaça proveniente de queimadas, cuja origem é majoritariamente a limpeza de pastagens e o desmatamento para agropecuária (IRB, 2024).
Esse modelo produtivo gera custos elevados para o sistema público de saúde. Estudos da Fiocruz indicam que as queimadas na Amazônia dobraram o número de internações infantis por problemas respiratórios na região, sobrecarregando o SUS e deteriorando a qualidade de vida urbana (FIOCRUZ, 2024). Portanto, adotar uma alimentação livre de produtos animais reduz o incentivo econômico para essas queimadas, protegendo o ar urbano.
Destaca-se, por fim, que o veganismo impulsiona modelos de “cidades comestíveis” através da agricultura urbana e periurbana. Isso se dá pois, diferentemente da pecuária, a produção vegetal adapta-se facilmente a pequenos espaços intraurbanos, promovendo segurança alimentar e inclusão social. A Horta de Manguinhos, no Rio de Janeiro, exemplifica essa transformação. Reconhecida como a maior horta comunitária da América Latina, transformou uma área degradada em polo de produção agroecológica, beneficiando centenas de famílias e gerando renda local (O DIA, 2023).
Para alcançar cidades verdadeiramente sustentáveis, o Brasil precisa integrar a transição alimentar ao planejamento urbano. O veganismo oferece a chave para reverter a lógica de exploração que esvazia o campo e satura a cidade, promovendo um futuro onde o alimento nutre a comunidade e regenera o ecossistema urbano.
Referências bibliográficas
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Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12 estabelece a necessidade de “assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis” (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2024), buscando desacoplar o crescimento econômico da degradação ambiental através do uso eficiente de recursos e minimização de resíduos. Para compreender os desafios desse objetivo, é fundamental examinar a produção de proteína animal, setor que opera sob lógica de ineficiência sistêmica gerando passivos ambientais em múltiplas dimensões. A transição para sistemas alimentares baseados em vegetais emerge, assim, como estratégia capaz de eliminar desperdícios estruturais e prevenir contaminação na fonte.
A produção animal enfrenta um paradoxo: apesar de intensiva em recursos, gera perdas significativas antes do consumo. Aproximadamente 23% da produção global de carne não chega ao consumo efetivo, distribuindo-se entre consumo (64%), manufatura (20%), distribuição (12%) e produção primária (3,5%) (UNEP et al., 2023). O produto desperdiçado representa não apenas o alimento em si, mas todos os recursos investidos em sua produção ao longo de meses ou anos: água, ração, terra, energia e outros insumos. Reduzir o consumo animal significa diminuir perdas em cascata que afetam terra, água, fertilizantes, biodiversidade e emissões de gases de efeito estufa. No Brasil, essa dinâmica ganha dimensões industriais. Em 2024, mais de 39 milhões de bovinos foram abatidos em estabelecimentos sob inspeção federal (IBGE, 2025). Contudo, o manejo inadequado e as condições de transporte prolongado frequentemente resultam em contusões severas que tornam porções significativas das carcaças impróprias para comercialização. Recursos naturais investidos por anos resultam em produto parcialmente inutilizado, revelando insustentabilidade mesmo dentro da lógica utilitarista da indústria.
A insustentabilidade manifesta-se também na gestão de resíduos químicos. O aumento de 9,2% na área tratada com defensivos agrícolas no Brasil em 2024 (SINDIVEG, 2025) vincula-se diretamente à expansão da demanda por soja e milho para ração animal. A produção animal gera volumes extraordinários de dejetos, frequentemente sem tratamento adequado, que saturam o solo com nitrogênio e fósforo. Isso provoca eutrofização de rios, processo no qual o excesso de nutrientes estimula proliferação descontrolada de algas, reduzindo o oxigênio dissolvido e inviabilizando a vida aquática. A cadeia de impactos estende-se também aos curtumes. O processamento do couro através do curtimento ao cromo gera resíduos contendo Cromo III que, sob determinadas condições ambientais, pode oxidar-se para Cromo VI, substância cancerígena e altamente tóxica (LABORATÓRIO NACIONAL DE LUIZ SINCROTON, 2017). Entre 2024 e 2025, fiscalizações em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul identificaram curtumes descartando efluentes irregularmente em córregos, contaminando bacias hidrográficas (G1 MS, 2024; BEM NOTÍCIAS, 2021). Alternativas vegetais ao couro eliminam essa demanda poluente, prevenindo a contaminação na origem.
A problemática estende-se também aos ecossistemas marinhos. A pesca de arrasto exemplifica a insustentabilidade estrutural: para cada quilograma de pescado comercializado, descartam-se proporções significativas de fauna acompanhante (bycatch), termo técnico que designa peixes, crustáceos e outros organismos marinhos capturados involuntariamente, sem valor comercial imediato. Estimativas indicam que o bycatch representa 10,8% da biomassa pesqueira extraída dos oceanos anualmente, sendo a pesca de arrasto responsável por 46% desse descarte (FAO, 2019). Esses organismos, geralmente mortos ou debilitados quando devolvidos ao mar, representam destruição da biodiversidade que compromete a estrutura trófica dos ecossistemas e a segurança alimentar futura. A eliminação do consumo de produtos pesqueiros remove diretamente essa pressão, permitindo a recuperação dos oceanos.
O ODS 12 incentiva a inovação empresarial sustentável, reconhecendo que a transformação produtiva requer alternativas economicamente viáveis. O Brasil tem testemunhado crescimento significativo nesse sentido. O mercado de produtos plant-based alcançou faturamento de R$ 1,1 bilhão em 2023, crescendo 38% em relação ao ano anterior (GFI BRASIL, 2024). Enquanto a produção animal opera através de múltiplas etapas, onde plantas alimentam animais que alimentam humanos, os produtos plant-based convertem proteínas vegetais como soja, ervilha e grão-de-bico diretamente em alimentos para consumo. Essa simplificação resulta em eficiência superior no aproveitamento de recursos, reduzindo simultaneamente demandas por terra, água e energia.
A ascensão desse setor demonstra que é possível gerar valor econômico e empregos qualificados mantendo alinhamento com princípios de sustentabilidade. Ao oferecer alternativas nutricionalmente adequadas que respeitam os limites planetários e a vida animal, o mercado plant-based materializa a convergência entre viabilidade econômica, responsabilidade ambiental e consideração ética. A transição para sistemas alimentares baseados em vegetais não constitui apenas opção de consumo individual, mas estratégia sistêmica de transformação produtiva. Ao eliminar ineficiências estruturais da produção animal, prevenir a geração de passivos ambientais e promover modelos de negócio alinhados com os limites planetários, o veganismo revela-se como caminho concreto e mensurável para a realização do ODS 12 e para a construção de padrões verdadeiramente sustentáveis de produção e consumo.
Referências bibliográficas
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Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 13 convoca as nações a adotarem medidas urgentes para combater as mudanças climáticas e seus impactos (NAÇÕES UNIDAS, 2015). Entre 1990 e 2019, as emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) cresceram aproximadamente 54%, chegando a cerca de 59 gigatoneladas de CO2 equivalente (WRI, 2023), provocando alterações nos sistemas biológicos e perdas econômicas. Embora a transição energética nos setores de transporte e eletricidade seja fundamental, evidências científicas demonstram que será extremamente difícil atingir as metas do Acordo de Paris sem transformações profundas no sistema alimentar global (GFI, 2022), com redução drástica do consumo de produtos de origem animal como elemento central dessa mudança.
Um dos argumentos centrais para o ODS 13 é a urgência da mitigação do metano, gás que possui um potencial de aquecimento global cerca de 83 vezes superior ao do dióxido de carbono (MYHRE et al., 2013). A pecuária é a maior fonte setorial antrópica de metano, sendo responsável por cerca de 37% dessas emissões globais (MAZE et al., 2024). No Brasil, a situação é ainda mais crítica: a agropecuária responde por aproximadamente 75% das emissões nacionais de metano (INSTITUTO DE ENERGIA E MEIO AMBIENTE, 2025), com o rebanho bovino, que atingiu cerca de 238 milhões de cabeças em 2025 (AGÊNCIA DE NOTÍCIAS IBGE, 2025), sendo o principal emissor através da fermentação entérica. Somado às emissões de metano, o setor pecuário é o principal vetor global de mudança no uso da terra, onde a conversão de ecossistemas nativos em pastagens e monoculturas de ração libera estoques massivos de CO2 armazenados na biomassa e no solo. No contexto brasileiro, essa dinâmica é responsável pela maior parte das emissões brutas do país, transformando sumidouros vitais de carbono em fontes de poluição climática e acelerando a perda de biodiversidade
A pecuária emite, ainda, outro GEE relevante para o clima: o óxido nitroso, proveniente do manejo de dejetos animais e dos fertilizantes utilizados na produção de ração, que possui potencial de aquecimento global cerca de 268 vezes superior ao do CO2 (MYHRE et al., 2013). Considerando todas essas fontes em conjunto, a FAO estima que a pecuária responde por 14,5% a 20% das emissões globais de GEE de origem antrópica (UNEP, 2023).
Além da redução das emissões diretas, uma alimentação baseada em plantas oferece uma oportunidade singular para o ODS 13: o sequestro massivo de carbono através da restauração de ecossistemas. Estudos publicados em periódicos como Nature indicam que a transição global para uma alimentação baseada em plantas, até 2050, permitiria o sequestro de 332 a 547 gigatoneladas de CO2 em áreas de pastagem e cultivos de ração liberados para regeneração natural (HAYEK et al., 2021), essencial para limitar o aquecimento a 1,5°C. No Brasil, onde as pastagens ocupam cerca de 164 milhões de hectares (MAPBIOMAS, 2024), a restauração dessas terras é uma estratégia de mitigação eficaz e de baixo custo disponível (WANG et al., 2023).
O impacto climático da exploração animal estende-se também aos oceanos. Pesquisas indicam que a pesca de arrasto de fundo pode mobilizar carbono armazenado nos sedimentos marinhos em escala significativa, chegando a cerca de 1 gigatonelada de carbono ao ano (SALA et al, 2021). Essa prática perturba estoques de “carbono azul” que levaram séculos para se acumular, além de comprometer a capacidade dos oceanos de funcionar como sumidouros de carbono. Ao promover uma alimentação de origem vegetal e a proteção da fauna marinha, reduz-se essa fonte de emissões e preserva-se a integridade dos ecossistemas marinhos, essenciais para a estabilidade do clima planetário.
Por fim, é necessário destacar a ineficiência estrutural do modelo atual. Pesquisas do World Resources Institute (2013) indicam que, num cenário de crescimento sem mitigação, as emissões da agricultura e do uso da terra poderiam consumir 70% ou mais do orçamento global de carbono disponível até 2050 para limitar o aquecimento a 2°C. Nesse contexto, Springmann et al. (2018) demonstram que nenhuma medida isolada (seja tecnológica, seja de redução de desperdício, seja de mudança dietética) é suficiente por si só para manter o sistema alimentar dentro dos limites planetários. A transformação necessária exige a combinação sinérgica dessas três frentes.
Agravando esse cenário, a crise climática e a crise de biodiversidade são profundamente interdependentes: as mudanças de temperatura e os impactos climáticos já alteraram de forma séria e, em alguns casos irreversível, a composição, função e estrutura de muitos ecossistemas e espécies. No entanto, políticas que tratam essas duas crises de forma separada continuam a dominar as soluções propostas, ignorando que a exploração animal é um vetor comum a ambas. Assim, as mudanças nos padrões de consumo alimentar, especialmente a redução significativa de produtos de origem animal em favor de uma alimentação plant-based, figuram como um dos vetores de maior impacto e menor custo nesse conjunto de soluções. Ignorar essa dimensão nas políticas públicas climáticas significa abrir mão de uma das alavancas mais poderosas disponíveis para evitar que o planeta cruze pontos de ruptura irreversíveis.
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WRI – WORLD RESOURCES INSTITUTE. 10 conclusões do Relatório do IPCC sobre Mudanças Climáticas de 2023, 2023. Disponível em: https://www.wribrasil.org.br/noticias/10-conclusoes-do-relatorio-do-ipcc-sobre-mudancas-climaticas-de-2023. Acesso em: mar. 2026.
WRI – WORLD RESOURCES INSTITUTE. Creating a Sustainable Food Future: Interim Findings, 2013. Disponível em: https://www.wri.org/research/creating-sustainable-food-future-interim-findings. Acesso em: mar. 2026.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 visa conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2015). Responsáveis por regular o clima, produzir oxigênio e sustentar a subsistência de bilhões de pessoas, os oceanos são sistemas essenciais para a vida no planeta. No entanto, esses ecossistemas enfrentam uma crise sem precedentes: cerca de 38% dos estoques pesqueiros mundiais já são explorados além dos limites sustentáveis, e a poluição marinha atingiu níveis alarmantes (OCEAN & CLIMATE PLATFORM, 2024). Entre os principais fatores dessa degradação está a exploração animal, por meio da pecuária industrial e da pesca comercial em larga escala, que representa um obstáculo estrutural ao alcance deste objetivo. O veganismo, por sua vez, emerge como uma estratégia sistêmica de proteção dos oceanos e da biodiversidade aquática.
A pecuária é a maior fonte setorial de poluição por nutrientes nos corpos d’água do mundo (LI et al., 2022). Os dejetos de animais criados em confinamento, repletos de nitrogênio e fósforo, escoam para rios e chegam ao mar, desencadeando a eutrofização, ou seja, o crescimento descontrolado de algas que consome o oxigênio disponível e cria “zonas mortas”, onde a vida aquática é praticamente inviável. Desde a década de 1950, o número de zonas mortas oceânicas quadruplicou (MACDONALD, 2018), chegando a mais de 700 regiões identificadas ao redor do mundo (UNIVERSITY OF MARYLAND, 2020). A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) aponta que, embora os assentamentos humanos e as indústrias gerem impactos significativos na qualidade da água, é a agricultura que se consolida como a maior poluidora em muitos países (FAO, 2018).
No Brasil, esse cenário é especialmente preocupante. O país abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, a Bacia Amazônica, e uma das maiores biodiversidades de água doce do mundo, mas enfrenta graves problemas de poluição hídrica decorrentes do modelo agropecuário predominante. Municípios situados em regiões de intensa pecuária bovina, como partes do Centro-Oeste e do Sul, registram altos índices de contaminação de rios e aquíferos por nitrato, patógenos e agrotóxicos, substâncias utilizadas nas lavouras de soja e milho destinadas à produção de ração animal. Essa poluição percorre as bacias hidrográficas e chega ao Oceano Atlântico, comprometendo os ecossistemas costeiros e marinhos.
A pesca industrial representa outra face da crise do ODS 14 pois captura anualmente bilhões de animais marinhos, como peixes, crustáceos e cefalópodes. Estudos estimam que 56% do número total de peixes capturados são processados para farinha e óleo de peixe para alimentar animais criados em cativeiro, como salmões, frangos e suínos (MOOD; BROOKE, 2024). Esse processo é duplamente destrutivo: retira biomassa dos oceanos e a converte em insumo para um sistema de produção animal igualmente impactante.
Além disso, a pesca de arrasto captura espécies não-alvo, fenômeno conhecido como bycatch. A WWF estima que o bycatch representa um dos maiores desafios da gestão pesqueira sustentável, com espécies ameaçadas (como tartarugas marinhas, golfinhos e tubarões) sendo capturadas e descartadas, mortas ou agonizantes (WWF, [s.d.]). Uma pesquisa publicada na Nature Communications identificou que mais de 90 espécies de peixes e invertebrados ameaçados de extinção são capturados rotineiramente por frotas pesqueiras industriais (ROBERSONM et al., 2020). A IUCN, por sua vez, aponta que a atividade humana, com destaque para a pesca comercial, é a principal responsável pela devastação de espécies marinhas, de mamíferos a corais (IUCN, 2022).
A poluição plástica nos oceanos é outro problema grave que se intensifica com a atividade pesqueira, pois equipamentos de pesca abandonados são uma das principais fontes de plástico nos mares. Redes, linhas, armadilhas e outros apetrechos descartados representam cerca de 10% do plástico que entra nos oceanos a cada ano, o equivalente a 640 mil toneladas anuais (GREENPEACE, 2019). Esses equipamentos continuam a capturar e matar animais marinhos de forma indiscriminada por décadas, num fenômeno chamado de pesca fantasma (ghost fishing).
No Brasil, o litoral de mais de 7 mil quilômetros e a vastidão da Zona Econômica Exclusiva tornam o país especialmente vulnerável a esse problema. A pesca artesanal e industrial ao longo da costa brasileira gera volumes significativos de resíduos que chegam ao oceano, ameaçando ecossistemas costeiros como manguezais, recifes de coral e pradarias marinhas, biomas de enorme relevância para a biodiversidade e para a regulação climática.
Já a aquicultura industrial, ou seja, a criação de peixes e frutos do mar em cativeiro, é frequentemente apresentada como uma alternativa sustentável à pesca extrativista, mas suas implicações ambientais são igualmente preocupantes. Em primeiro lugar, a produção de peixes carnívoros em cativeiro, como o salmão, depende significativamente de farinha e óleo extraídos de espécies selvagens, pressionando os mesmos estoques marinhos que se pretende proteger. Além disso, as instalações de aquicultura intensiva favorecem a propagação de doenças e parasitas e geram volumes elevados de resíduos orgânicos que poluem os ecossistemas aquáticos adjacentes. Por fim, espécies não nativas que escapam das instalações podem competir com espécies locais, romper equilíbrios ecológicos e contaminar o patrimônio genético das populações selvagens. Longe de ser uma solução, a aquicultura intensiva reproduz e, em alguns aspectos, aprofunda os mesmos problemas estruturais da pesca industrial.
Diante desse quadro, a adoção de uma alimentação vegana constitui uma das intervenções mais eficazes e diretas para a proteção dos oceanos e o alcance do ODS 14. Ao eliminar o consumo de produtos de origem animal, incluindo pescados, o veganismo remove a demanda que sustenta tanto a pesca industrial quanto a aquicultura intensiva, reduzindo a pressão sobre os estoques marinhos e permitindo a recuperação dos ecossistemas. Ao mesmo tempo, a transição para sistemas alimentares baseados em vegetais reduz drasticamente a poluição por nutrientes que chega aos oceanos via bacia hidrográfica, contribuindo para a eliminação das zonas mortas e para a restauração da biodiversidade marinha.
Fica evidente, portanto, que a crise dos oceanos não pode ser dissociada do modelo alimentar hegemônico baseado na exploração animal. A proteção da vida aquática exige mudanças estruturais nos sistemas de produção e consumo de alimentos. O veganismo, nesse sentido, não é apenas uma escolha ética individual, mas uma estratégia coletiva e urgente para garantir a saúde dos oceanos, a segurança alimentar das populações costeiras e o cumprimento do ODS 14.
Referências bibliográficas
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). More people, more food, worse water? A global review of water pollution from agriculture. Rome, 2018. Disponível em: https://www.fao.org/3/CA0146EN/ca0146en.pdf. Acesso em: jun. 2026.
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LI, Y. et al. Multi-pollutant assessment of river pollution from livestock production worldwide. Water Research, v. 209, 2022, https://doi.org/10.1016/j.watres.2021.117906
MACDONALD, F. Hidden ‘dead zones’ in the ocean have quadrupled since the ’50s, and that’s really bad. ScienceAlert, 5 jan. 2018. Disponível em: https://www.sciencealert.com/dead-zones-in-ocean-quadrupled-since-1950s-killing-marine-life. Acesso em: jun. 2026.
MOOD A., BROOKE, P. Estimating global numbers of fishes caught from the wild annually from 2000 to 2019. Animal Welfare. 2024. doi:10.1017/awf.2024.7
NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14: Vida na Água. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/14. Acesso em: jun. 2026.
OCEAN & CLIMATE PLATFORM. Fishing and Aquaculture in a Changing Climate: Challenges and Perspectives, 32 p., 2024. Disponível em: https://ocean-climate.org/wp-content/uploads/2024/10/Fishing-aquaculture-in-a-changing-climate_DIFCO2024.pdf. Acesso em: jun. 2026.
ROBERSON, L. A. et al. Over 90 endangered fish and invertebrates are caught in industrial fisheries. Nature Communications, 11, 4764, 2020. https://doi.org/10.1038/s41467-020-18505-6
UNIVERSITY OF MARYLAND. Coastal pollution is causing significant increase in dead zones in oceans around the world. 31 ago. 2020. Disponível em: https://www.umces.edu/news/coastal-pollution-is-causing-significant-increase-in-dead-zones-in-oceans-around-the-world/. Acesso em: jun. 2026.
WORLD WILDLIFE FUND (WWF). Bycatch. Disponível em: https://www.worldwildlife.org/threats/bycatch. Acesso em: jun. 2026.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 15 busca proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2015). A biodiversidade é a base material da vida no planeta, pois sustenta os serviços ecossistêmicos dos quais a humanidade depende, como polinização, regulação do clima, purificação da água, fertilidade do solo e produção de alimentos (CARRINGTON, 2018). No entanto, as tendências atuais apontam para uma crise sem precedentes: cientistas alertam para um futuro de extinções em massa e colapso ecossistêmico caso a trajetória atual de destruição de habitats não seja revertida (WESTON, 2021). No centro dessa crise está a pecuária, reconhecida como o principal vetor de perda de biodiversidade e degradação territorial no mundo (STOP FINANCING FACTORY FARMING, 2026). O veganismo, ao propor uma ruptura com esse modelo, emerge como uma das estratégias mais eficazes para o alcance do ODS 15.
A pecuária e a produção de ração animal são os principais motores do desmatamento global. A produção de alimentos ocupa atualmente 50% da superfície habitável do planeta, e a maior parte desse território (77%) é destinada à criação de animais ou ao cultivo de grãos para alimentá-los (UNEP, 2023). Apesar da pecuária e dos cultivos de ração concentrarem a maior fatia do uso de terras agrícolas mundiais, fornecem uma parcela desproporcional das calorias consumidas. Uma consequência disso é que a destruição de florestas e campos naturais para abertura de pastagens e monoculturas é a maior causa individual de perda de biodiversidade no planeta (DAVIS, 2022).
No Brasil, esse cenário é particularmente grave. O país abriga a maior biodiversidade do mundo (BRASIL, [s.d.]) e, ao mesmo tempo, concentra algumas das taxas de desmatamento mais altas do planeta. A abertura de pastagens é responsável por mais de 90% do desmatamento na Amazônia (MAPBIOMAS, 2024), bioma que armazena bilhões de toneladas de carbono e abriga aproximadamente 10% de todas as espécies do planeta (GREENPEACE, 2025). O Cerrado, segundo maior bioma brasileiro e considerado a savana mais biodiversa do mundo, já teve mais de 50% de sua vegetação nativa suprimida, em grande parte pelo avanço do agronegócio (MAPBIOMAS, 2023).
Além da conversão de habitats, a produção animal degrada os ecossistemas que resistem. O pisoteio do rebanho, o superpastejo e o uso intensivo de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos nas lavouras de ração comprometem a saúde do solo, reduzindo sua biodiversidade microbiana, aumentando a erosão e diminuindo a capacidade produtiva a longo prazo (BEGUM, 2021).
A poluição por dejetos animais e pelo excesso de fertilizantes representa outra ameaça concreta aos ecossistemas terrestres e aquáticos. Os resíduos nitrogenados e fosfatados escorrem para rios, lagos e lençóis freáticos, provocando a eutrofização de corpos d’água e a morte de espécies aquáticas (KEENA et al., 2022). O uso massivo de pesticidas nas monoculturas de ração, por sua vez, dizima populações de insetos polinizadores, especialmente abelhas, aves e outros organismos essenciais ao equilíbrio ecossistêmico (ROSS, 2022).
Além disso, a destruição de habitats, combinada com a caça, o comércio de animais silvestres e a perseguição sistemática de predadores, tem resultado em declínios populacionais dramáticos. Estima-se que as populações de vertebrados selvagens diminuíram em média 69% entre 1970 e 2018 (WWF, 2022). O comércio global de fauna silvestre também contribui significativamente para o declínio de espécies, enquanto a remoção de grandes predadores, frequentemente realizada para proteger rebanhos, gera cascatas tróficas que desestabilizam ecossistemas inteiros (THE GUARDIAN, 2014).
Diante desse panorama, o veganismo oferece uma resposta sistêmica e de alto impacto para o alcance do ODS 15. A transição para uma alimentação baseada em plantas tem o potencial de reduzir drasticamente a demanda por terras agrícolas. No Brasil, isso representa a possibilidade de liberar milhões de hectares atualmente ocupados por pastagens e lavouras de ração, transformando o país em um protagonista global da recuperação da biodiversidade e do sequestro de carbono.
Ao eliminar a necessidade de desmatamento para pecuária, reduzir o uso de agrotóxicos e fertilizantes, e romper com a lógica de perseguição à fauna silvestre, o veganismo atua simultaneamente em múltiplas frentes do ODS 15. Trata-se, portanto, não apenas de uma escolha alimentar ética, mas de uma estratégia ambiental concreta, com potencial transformador à altura da gravidade da crise de biodiversidade que enfrentamos.
Referências bibliográficas
BEGUM, T. Soil degradation: The problems and how to fix them. Natural History Museum, 16 abr. 2021. Disponível em: https://www.nhm.ac.uk/discover/soil-degradation.html. Acesso em: jun. 2026.
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CARRINGTON, D. What is biodiversity and why does it matter to us? The Guardian, 12 mar. 2018. Disponível em: https://www.theguardian.com/news/2018/mar/12/what-is-biodiversity-and-why-does-it-matter-to-us. Acesso em: jun. 2026.
DAVIS, J. Destruction of forests and grasslands is biggest cause of biodiversity loss. Natural History Museum, 9 nov. 2022. Disponível em: https://www.nhm.ac.uk/discover/news/2022/november/destruction-forests-and-grasslands-biggest-cause-of-biodiversity-loss.html. Acesso em: jun. 2026.
GREENPEACE BRASIL. 10 motivos para agir pela Amazônia, 2025. Disponível em: https://www.greenpeace.org/brasil/blog/10-motivos-para-agir-pela-amazonia/. Acesso em: jun. 2026.
KEENA, M. et al. Environmental implications of excess fertilizer and manure on water quality. NDSU Agriculture and Extension, ago. 2022. Disponível em: https://www.ndsu.edu/agriculture/extension/publications/environmental-implications-excess-fertilizer-and-manure-water-quality. Acesso em: jun. 2026.
MAPBIOMAS. Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagem. 3 out. 2024. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/2024/10/03/mais-de-90-do-desmatamento-da-amazonia-e-para-abertura-de-pastagem/. Acesso em: jun. 2026.
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THE GUARDIAN. Carnivore cleansing is damaging ecosystems, scientists warn. 9 jan. 2014. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2014/jan/09/carnivore-cleansing-damaging-ecosystems. Acesso em: jun. 2026.
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WESTON, P. Top scientists warn of ‘ghastly future of mass extinction’ and climate disruption. The Guardian, 13 jan. 2021. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2021/jan/13/top-scientists-warn-of-ghastly-future-of-mass-extinction-and-climate-disruption-aoe. Acesso em: jun. 2026.
WWF. 69% average decline in wildlife populations since 1970, says new WWF report. 2022. Disponível em: https://www.worldwildlife.org/news/press-releases/69-average-decline-in-wildlife-populations-since-1970-says-new-wwf-report/. Acesso em: jun. 2026.
Autora: Julia Lopes
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16 busca promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, garantir o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2015). Entre suas metas centrais estão a redução de todas as formas de violência, o combate à corrupção, a garantia da participação pública nas tomadas de decisão e o fortalecimento do Estado de Direito. No entanto, a indústria de exploração animal representa um obstáculo estrutural e sistemático para o alcance dessas metas, operando por meio de desequilíbrios legislativos, captura institucional e fomento a conflitos socioambientais. O veganismo, ao propor uma ruptura com esse modelo, emerge como ferramenta estratégica de política pública capaz de fortalecer a democracia, a justiça e as instituições.
Um dos mecanismos mais visíveis pelos quais a indústria animal mina o ODS 16 é a captura das instituições por meio do lobby corporativo. Organizações ligadas à carne, aos laticínios e ao agronegócio investem recursos para moldar legislações a seu favor, bloquear regulamentações e garantir subsídios públicos que distorcem a competição no mercado (HUEHNERGARTH, 2016). No Brasil, o chamado “lobby ruralista”, ou seja, bancada que representa os interesses do agronegócio no Congresso Nacional, é historicamente um dos mais poderosos do país, atuando para garantir isenções fiscais, flexibilizar legislações ambientais e proteger o setor de qualquer tributação mais justa (WORLD ANIMAL PROTECTION, 2025). Essa influência desproporcional compromete diretamente a integridade das instituições democráticas e o princípio da igualdade perante a lei.
No Brasil, a relação entre agropecuária e ilegalidade tem raízes profundas e bem documentadas. A grilagem de terras, isso é, a fraude sistemática de títulos de propriedade para apropriação de áreas públicas, é um fenômeno intrinsecamente ligado à expansão da pecuária e das monoculturas de ração. Investigações jornalísticas e do Ministério Público revelam que grande parte das terras desmatadas ilegalmente na Amazônia alimenta diretamente a cadeia global da carne bovina (OCCRP, 2022). Essa dinâmica não apenas viola o Estado de Direito, como também expulsa comunidades indígenas, quilombolas e camponesas de seus territórios, perpetuando ciclos de conflito fundiário e violência no campo. Entre 2019 e 2023, o Brasil registrou centenas de assassinatos de lideranças indígenas e de trabalhadores rurais diretamente ligados a disputas por terra no contexto do avanço do agronegócio (CPT, 2023).
A exploração de recursos naturais pela pecuária também é vetor de conflitos em torno de bens comuns essenciais, como a água e a terra. O avanço do agronegócio e de sua infraestrutura logística, como a construção de portos e o intenso tráfego de barcaças de soja, tem gerado impactos severos nos sistemas hídricos da Amazônia. Em comunidades do Pará, ribeirinhos relatam que a fuligem das embarcações cai diretamente nos rios, alterando a qualidade da água. Segundo os relatos colhidos por Mota (2026), o desmatamento nas margens e a implantação de infraestruturas pesadas desregulam os ciclos naturais de aumento das águas, tornando a sobrevivência e a segurança alimentar dessas populações cada vez mais difíceis. Essa dinâmica configura uma forma de violência estrutural e ambiental que o ODS 16 busca precisamente erradicar.
Outro aspecto frequentemente negligenciado na discussão sobre o ODS 16 é a relação entre a exploração animal e a normalização cultural da violência. Pesquisas indicam que existe uma correlação estabelecida entre crueldade contra animais e outras formas de violência interpessoal e comunitária (HODGES, 2008). Estudos apontam que trabalhadores submetidos ao ambiente dos matadouros apresentam taxas elevadas de comportamentos violentos, além de sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (SLADE; ALLEYNE, 2022). O ODS 16 reconhece que a construção de sociedades pacíficas exige o enfrentamento das raízes culturais e econômicas da violência. Logo, a violência sistêmica e institucionalizada contra animais não pode ser dissociada desse debate.
Ademais, o comércio ilegal de fauna silvestre representa outra interface crítica entre exploração animal e as metas do ODS 16. Com valor anual estimado em US$ 20 bilhões, o tráfico de animais silvestres é o quarto maior crime organizado do mundo, superado apenas pelo tráfico de drogas, armas e pessoas (COLLYNS, 2019). Na América Latina, esse mercado está em expansão e frequentemente se entrelaça com outras redes criminosas, minando o Estado de Direito e a capacidade das instituições de segurança pública de garantir ordem e justiça.
Diante desse cenário, o veganismo oferece uma ferramenta estratégica de política pública que contribui estruturalmente para o alcance do ODS 16. Ao reduzir a demanda por produtos de origem animal, enfraquece o poder econômico e político das corporações que capturam instituições e bloqueiam reformas regulatórias. Ao promover sistemas alimentares descentralizados, baseados na agricultura familiar e em cadeias curtas de produção, fortalece economias locais e reduz a concentração de poder que alimenta a corrupção. Ao eliminar a necessidade de expansão de pastagens e monoculturas de ração, contribui para a resolução pacífica de conflitos fundiários e para a proteção dos territórios de comunidades vulneráveis. Ou seja, a transição para uma alimentação baseada em plantas não é apenas uma estratégia ambiental ou de saúde pública, é também uma agenda de fortalecimento democrático. Sociedades que optam por sistemas alimentares mais justos, transparentes e não violentos constroem, ao mesmo tempo, as bases institucionais e culturais para a paz, a justiça e a inclusão que o ODS 16 persegue.
Referências bibliográficas:
COLLYNS, D. Wildlife trafficking on the rise all across Latin America. The Guardian, 7 out. 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2019/oct/07/wildlife-trafficking-rise-across-latin-america. Acesso em: jun. 2026.
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HODGES, C. The Link: Cruelty to Animals and Violence Towards People. In: Michigan State University College of Law, 2008. Disponível em: https://www.animallaw.info/article/link-cruelty-animals-and-violence-towards-people. Acesso em: jun. 2026.
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SLADE, J.; ALLEYNE, E. The Psychological Impact of Slaughterhouse Employment: A Systematic Literature Review. In: Trauma, Violence, & Abuse, v. 24, n. 2, p. 429–440, 2021. doi: 10.1177/15248380211030243.
WORLD ANIMAL PROTECTION. O lobby da carne e o preço da desinformação para a sociedade. 09 set. 2025. Disponível em: https://www.worldanimalprotection.org.br/mais-recente/noticias/O-lobby-da-carne-e-o-preco-da-desinformacao-para-a-sociedade/. Acesso em: jun. 2026.
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 17 busca fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2015). Suas metas envolvem o fortalecimento da cooperação internacional, a mobilização de recursos financeiros, o acesso a tecnologias e o estabelecimento de parcerias multissetoriais capazes de viabilizar os demais 16 objetivos da Agenda 2030. Contudo, a indústria de exploração animal representa um obstáculo estrutural e muitas vezes invisibilizado para a concretização dessas parcerias, ao capturar processos regulatórios, distorcer acordos comerciais e concentrar poder econômico em detrimento do interesse coletivo.
O ODS 17 pressupõe que os meios de implementação da Agenda 2030 sejam orientados pelo interesse público e pela cooperação genuína entre governos, sociedade civil e setor privado. No entanto, a indústria de exploração animal opera para subverter essa lógica. No plano internacional, grandes empresas de carne e laticínios, bem como os grupos de lobby que as representam, gastam dezenas de milhões de dólares para influenciar legislações, bloquear regulações ambientais e moldar acordos comerciais em seu favor. Apenas nos Estados Unidos, as principais associações da indústria da carne e dos laticínios investiram coletivamente cerca de US$ 200 milhões em lobby desde o ano 2000, atuando sistematicamente para semear dúvidas sobre os vínculos entre a produção animal e as mudanças climáticas e para barrar medidas que afetariam a lucratividade do setor (PHYSICIANS COMMITTEE FOR RESPONSIBLE MEDICINE, 2021).
No Brasil, o chamado “lobby ruralista”, ou seja, o bloco parlamentar que representa os interesses do agronegócio, exerce influência determinante sobre políticas públicas relacionadas ao uso da terra, ao licenciamento ambiental e à fiscalização trabalhista. Esse grupo tem historicamente atuado para flexibilizar o Código Florestal, reduzir a proteção de territórios indígenas e quilombolas, e bloquear legislações que poderiam internalizar os custos socioambientais da pecuária. Como resultado, os subsídios públicos continuam sendo direcionados majoritariamente para grandes corporações do agronegócio, em vez de fortalecer a agricultura familiar, as cadeias alimentares locais e os sistemas produtivos sustentáveis que poderiam alinhar o Brasil às metas da Agenda 2030 (WORLD ANIMAL PROTECTION, 2025).
A desinformação promovida pela indústria também afeta a capacidade de construir parcerias baseadas em transparência. Lobbies da pecuária europeia, por exemplo, têm veiculado narrativas que minimizam o impacto ambiental do setor e associam o consumo de carne à identidade cultural e à soberania alimentar, obscurecendo as evidências científicas sobre a contribuição da produção animal para as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e as desigualdades globais (DESMOG, 2024). No Brasil, estratégias similares são utilizadas para associar o agronegócio ao desenvolvimento nacional, dificultando o debate público qualificado sobre a transição para sistemas alimentares mais sustentáveis.
Diante desse cenário, o veganismo emerge como uma ferramenta estratégica de política pública capaz de reorientar as parcerias nacionais e internacionais para o desenvolvimento sustentável. Ao reduzir a demanda por produtos de origem animal, enfraquece-se o poder político e econômico das corporações que bloqueiam a ação climática e a cooperação multilateral. Ao mesmo tempo, o crescimento do mercado plant-based, que no Brasil superou R$ 1 bilhão em faturamento em 2023 (GFI BRASIL, 2024), estimula o surgimento de novos atores econômicos comprometidos com a transparência, a inovação sustentável e a colaboração com a sociedade civil e o poder público.
Para que o ODS 17 seja efetivamente alcançado, é necessário que governos, organizações internacionais e sociedade civil reconheçam a captura regulatória exercida pela indústria de exploração animal como um obstáculo estrutural à cooperação global. Políticas públicas que redirecionem subsídios da pecuária para sistemas alimentares baseados em vegetais, que fortaleçam a regulação sobre práticas de lobby no setor agroalimentar e que ampliem a participação de organizações da sociedade civil nas negociações internacionais são passos fundamentais. O veganismo, nesse contexto, não é apenas uma escolha individual: é uma alavanca coletiva para construir as parcerias verdadeiramente comprometidas com o bem-estar humano, animal e planetário que a Agenda 2030 exige.
Referências bibliográficas
DESMOG. European Livestock Voice. Disponível em: https://www.desmog.com/european-livestock-voice/. Acesso em: juL. 2026.
GFI BRASIL. Mercado brasileiro de carnes vegetais ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão em 2023. 2024. Disponível em: https://gfi.org.br/mercado-brasileiro-de-carnes-vegetais-ultrapassou-a-marca-de-r-1-bilhao-em-2023/. Acesso em: jul. 2026.
NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 17: Parcerias e Meios de Implementação. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/17. Acesso em: jul. 2026.
PHYSICIANS COMMITTEE FOR RESPONSIBLE MEDICINE. U.S. meat and dairy companies spend millions lobbying against climate legislation. 14 abr. 2021. Disponível em: https://www.pcrm.org/news/blog/us-meat-and-dairy-companies-spend-millions-lobbying-against-climate-legislation. Acesso em: jul. 2026.
WORLD ANIMAL PROTECTION. O lobby da carne e o preço da desinformação para a sociedade. 2025. Disponível em: https://www.worldanimalprotection.org.br/mais-recente/noticias/O-lobby-da-carne-e-o-preco-da-desinformacao-para-a-sociedade/. Acesso em: jul. 2026.


