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21/01/2026

Terras marginais: Por que a pecuária não é a solução?

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Quem assistiu ao vídeo “1 Churrasqueira vs 30 Veganos“, que circulou bastante nas redes sociais, notou que muitos argumentos e dados foram mencionados ao longo da discussão, tanto contra quanto a favor do veganismo. Em determinado momento do debate, a Chef Ju Lima afirma que dois terços das terras agrícolas globais ocupadas pela pecuária são “terras marginais”, ou seja, inadequadas para a produção de alimentos. Essa afirmação foi utilizada para sugerir que a criação de animais seria a única opção viável para essas áreas, já que elas só serviriam para pastagem. Mas será que esse argumento realmente se sustenta quando examinamos os dados com cuidado?

Para responder a isso, precisamos primeiro entender o que significa “terra marginal”. Segundo relatório da FAO, este termo refere-se a áreas que enfrentam desafios específicos para a agricultura: podem ser solos pobres em nutrientes, regiões com baixo índice pluviométrico, terrenos muito inclinados ou locais geograficamente isolados, onde não há infraestrutura adequada como estradas ou acesso a mercados. Em outras palavras, são terras que produzem menos do que o ideal ou que exigem investimentos e cuidados especiais para se tornarem produtivas. É importante destacar, contudo, que a condição de marginalidade não é permanente ou irreversível, pois uma área pouco produtiva pode se transformar em terra fértil com manejo adequado (AHMADZAI et al., 2022). 

A fala da Chef Ju Lima tem base em um estudo por pesquisadores da FAO, que aponta que a pecuária global utiliza cerca de 2,5 bilhões de hectares, sendo que, de fato, aproximadamente dois terços (57%) desse total são compostos por pastagens e ecossistemas classificados como terras marginais  (MOTTET et al., 2017). À primeira vista, pode parecer lógico usar essas terras para criar gado, já que elas não serviriam facilmente para plantar alimentos. O problema é que essa estatística conta apenas metade da história. O argumento falha ao ignorar que a pecuária moderna não vive apenas de pasto: a produção de ração ocupa aproximadamente um terço do total de terras cultivadas do planeta (FAO, 2022).

A pecuária moderna, que também inclui a produção massiva de suínos e aves, depende de ração concentrada. E mesmo no caso dos bovinos, a maior parte passa por uma etapa final de engorda (ou terminação), onde são alimentados com grãos para atingir o peso de abate mais rapidamente. O resultado é que 36% das calorias produzidas pelas culturas mundiais (CASSIDY et al., 2013), como milho e soja cultivados em terras de alta qualidade, são desviados para engordar animais, em vez de serem destinados ao consumo humano direto.

Existe ainda uma contradição nesse debate: a pecuária não apenas “ocupa” terras marginais, ela contribui ativamente para criá-las. Ou seja, o setor justifica sua presença dizendo que utiliza solos impróprios para a agricultura, mas omite que o manejo inadequado do gado (através do sobrepastejo, da compactação do solo e do uso intensivo de recursos hídricos) é um importante motor de degradação ambiental global. Assim, a atividade pecuária transforma terras que eram saudáveis e férteis em solos esgotados, secos e erodidos, criando um ciclo vicioso onde ela se apresenta como a solução para um problema que ela mesma ajudou a criar e exacerbar.

Além dessa destruição do solo, o modelo apresenta uma ineficiência energética profunda. O processo de converter proteína vegetal em animal gera perdas imensas: para cada 100 calorias de grãos fornecidas aos animais, obtêm-se apenas cerca de 3 calorias de carne bovina, 10 de porco ou 12 de frango (FOLEY, 2019). Estudos apontam que, se as culturas utilizadas para ração fossem direcionadas para o consumo humano, a disponibilidade de calorias poderia aumentar em até 70%, o suficiente para alimentar 4 bilhões de pessoas adicionais (CASSIDY et al., 2013).

Portanto, o argumento de que a dois terços de terra ocupada pela pecuária é marginal desvia nossa atenção do problema real: o uso massivo de terras cultiváveis e férteis para sustentar a criação de animais. Para as populações que vivem em áreas de terras marginais (cerca de 1,75 bilhão de pessoas em regiões como Ásia Meridional e África Subsaariana), a solução não reside  na pecuária extensiva, mas na aplicação de princípios agroecológicos, garantindo o uso regenerativo dos recursos naturais e dos serviços ecossistêmicos. Essas abordagens têm demonstrado grande potencial para recuperar solos degradados e aumentar a produtividade, respeitando os limites ambientais (AHMADZAI et al., 2022).

Além disso, nem toda terra marginal precisa ser destinada à produção de alimentos. Muitas dessas áreas poderiam ser mais valiosas como florestas regeneradas, áreas de conservação ou sistemas agroflorestais mistos, que combinam produção de alimentos com restauração ecológica. Essas opções não apenas recuperam a biodiversidade, mas também capturam carbono e fornecem serviços ecossistêmicos essenciais.

Portanto, uma transição para uma alimentação baseada em vegetais é essencial para enfrentar os desafios ambientais e sociais. Ao reduzir a demanda por pastagens e cultivos para ração, liberamos terras que podem ser usadas para recuperação ambiental e para a produção eficiente de alimentos vegetais. Essa mudança, aliada a políticas de agroecologia em terras marginais, representa a solução mais robusta para combater a pobreza e garantir a segurança alimentar global de forma justa.

 

Referências bibliográficas:

AHMADZAI, H. et al. Marginal lands: potential for agricultural development, food security and poverty reduction. Rome, FAO. 2022. https://doi.org/10.4060/cc2838en.

CASSIDY, E. S. et al. Redefining agricultural yields: from tonnes to people nourished per hectare. Environmental Research Letters, v. 8, 2013. http://dx.doi.org/10.1088/1748-9326/8/3/034015

FAO. The State of the World’s Land and Water Resources for Food and Agriculture – Systems at breaking point. Main report. Rome. 2022. https://doi.org/10.4060/cb9910en

FOLEY, J. A five-step plan to feed the world. National Geographic, 2019. Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/foodfeatures/feeding-9-billion/. Acesso em: 16 dez. 2025.

MOTTET, A. et al. Livestock: On our plates or eating at our table? A new analysis of the feed/food debate. Global Food Security, V. 14, 2017. https://doi.org/10.1016/j.gfs.2017.01.001.

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