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26/06/2024

Como a pecuária favorece a ocorrência de desastres?

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Autora: Julia Lopes

 

Um desastre é o resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, que afetam um ecossistema vulnerável, causando danos sociais, econômicos e ambientais. Inundações, deslizamentos e secas são alguns exemplos de desastres que ocorrem com frequência no Brasil e no mundo.

Embora tais fenômenos sejam influenciados por condições climáticas adversas, eles também são fortemente potencializados pela ação humana. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima de 2021, que representa o consenso de grande parte da comunidade científica internacional, afirma que as emissões de gases de efeito estufa (GEE) resultantes de atividades humanas têm aumentado a frequência e intensidade de eventos extremos.

Não é exagero afirmar que já estamos vivendo essas mudanças. Em 2023, o Brasil registrou o maior número de desastres de sua série histórica. Foram 1.161 eventos de desastres registrados no país em 2023. Para efeito de comparação, em 2016, foram 400 eventos registrados no país. As chuvas sem precedentes no Sul vivenciadas esse ano, a seca histórica na Amazônia de 2023 e as crescentes ondas de calor espalhadas pelo país são tristes lembretes das consequências da ação humana sobre o meio ambiente.

Nesse contexto, é fundamental pontuar que a pecuária é uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa (GEE). Globalmente, a pecuária é responsável por cerca de 18% das emissões de GEE provocadas pelo ser humano. No Brasil, esse cenário é mais alarmante. Em 2021, 73,7% das emissões de GEE do país vieram da produção de alimentos. Dentre essas, a cadeia de produção da carne bovina foi responsável pela emissão de 1,4 bilhões de toneladas brutas de CO2, o que representou 77,6% das emissões referentes aos sistemas alimentares no país. Ou seja, em 2021, no Brasil, 57,2% das emissões totais de GEE vieram da cadeia produtiva de carne bovina.

Logo, observa-se uma forte correlação entre agropecuária, emissões de GEE e  desastres. Diversas práticas agropecuárias insustentáveis, como a monocultura, o uso intensivo de agrotóxicos e o desmatamento associado à criação de gado também colaboram para o desequilíbrio ambiental como um todo.

Neste contexto, o desmatamento é um dos principais motores da degradação ambiental no Brasil. Em 2022, a Floresta Amazônica perdeu 21 árvores por segundo, resultando em cerca de 660 milhões de árvores derrubadas ao longo do ano. No mesmo ano, constatou-se que 44,2% do Cerrado estava ocupado pela agropecuária. Tanto a Amazônia quanto o Cerrado são essenciais para as dinâmicas climáticas locais, regionais e continentais. A primeira em função dos rios voadores e o segundo por ser considerado “a caixa d’água brasileira”, pois abriga as três maiores bacias hidrográficas da América do Sul (Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata).

Em uma entrevista concedida ao jornal Brasil de Fato em novembro de 2023, Luiz Marques, professor doutor da UNICAMP, declarou: “Esse modelo agrícola baseado na monocultura e pecuária bovina voltado para a exportação tem impacto na destruição da manta vegetal brasileira, não só a Amazônia mas em outros biomas. É simplesmente suicida para a própria cultura do agronegócio, para a sociedade brasileira e para a nossa biodiversidade.”

Além dos desastres e desequilíbrios ambientais resultantes, as práticas predatórias relacionadas à pecuária também representam uma ameaça significativa à segurança alimentar. Diante deste desafio, é urgente a transição para um sistema agroalimentar mais sustentável. Neste cenário, o veganismo surge como uma alternativa viável e ética, não apenas para proteger o meio ambiente, mas também para garantir a segurança alimentar e o bem-estar de todos os seres vivos.

Cidade de Encantado (RS) inundada. Em 2023, o Brasil registrou um recorde de 1.161 desastres.
Fonte: Exame (2024)

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