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24/02/2026
Os nomes da crise ambiental: O que são Antropoceno, Capitaloceno e Plantationoceno?
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A contemporaneidade é marcada pela aceleração da crise ambiental: eventos climáticos extremos, a perda da biodiversidade, o aquecimento do planeta e a desestabilização dos ciclos biogeoquímicos são sintomas de uma transformação profunda do planeta. Para compreender a magnitude dessas mudanças, a comunidade científica desenvolveu terminologias que buscam nomear este tempo e investigar as causas estruturais da degradação planetária. Conceitos como Antropoceno, Capitaloceno e Plantationoceno emergem como ferramentas analíticas que buscam entender o presente e vislumbrar possibilidades de futuro.
O termo mais difundido nesse debate é o Antropoceno, usado para designar a época geológica atual e sinalizar o fim do Holoceno. Proposto por Paul Crutzen e Eugene Stoermer em 2000, o conceito consolida a ideia de que a atividade humana transformou de modo profundo a biosfera e passou a atuar como força geológica. Em outras palavras, o impacto humano já se aproxima das grandes forças da natureza: altera a composição da atmosfera e deixa registros duradouros na estratigrafia terrestre. No entanto, ao generalizar a responsabilidade para a humanidade como um todo, o Antropoceno acaba ocultando profundas disparidades históricas.
É nesse vácuo explicativo que Andreas Malm e Jason Moore propõem o conceito de Capitaloceno: a ação humana, argumentam, é sempre atravessada por relações políticas e econômicas de poder e por desigualdades próprias do capitalismo. Para os autores, a crise atual é resultado de um modelo de acumulação que exige crescimento infinito e a exploração de uma “Natureza Barata”, já amplamente degradada. O Capitaloceno revela, portanto, que é a organização da vida sob a lógica do capital (e não a ação humana em abstrato) o que impulsiona o esgotamento dos recursos e a desigualdade socioambiental.
Complementando essa perspectiva, o conceito de Plantationoceno foca na espacialidade e na forma como a terra é manejada. Proposto por um grupo de pensadores (Donna Haraway, Anna Tsing, Scott F. Gilbert, Nils Bubandt, Noboru Ishikawa e Kenneth Olwig), o conceito destaca a transformação de ecossistemas complexos e biodiversos em monoculturas simplificadas: as plantations. Essa lógica, herdada do colonialismo, baseia-se na exploração e na alienação de seres humanos e não-humanos de seus contextos de origem para facilitar a extração de valor, explicando tanto a padronização das paisagens quanto a perda de resiliência biológica, onde a vida é reduzida a mercadorias transportáveis. A produção de monoculturas pelo agronegócio e a produção global de carne são expressões desse modelo predatório.
Diante desse diagnóstico, Donna Haraway propõe ainda o conceito de Chthuluceno como horizonte de recuperação: um chamado a cultivar novas formas de parentesco e colaboração entre espécies. Fundado na ideia de simpoiese (o “fazer-com”), o Chthuluceno parte do reconhecimento de que a sobrevivência humana é indissociável da restauração das redes de interdependência multiespécies.
A relevância desses conceitos torna-se ainda mais evidente quando conectada à questão da alimentação, que atua como importante ponto de fricção entre a sociedade e o meio ambiente. O sistema alimentar global contemporâneo é, simultaneamente, um relevante motor do Antropoceno e expressão do Capitaloceno e do Plantationoceno. A produção industrial de alimentos, especialmente a pecuária em larga escala, promove a destruição de extensas áreas em desertos de monoculturas para pastagem e ração, consolidando a lógica extrativista do Plantationoceno. A transformação de animais sencientes em engrenagens de uma linha de montagem, por sua vez, exemplifica a mercantilização da vida característica do Capitaloceno.
Portanto, a transição para sistemas alimentares baseados em plantas e pautados pela agroecologia é uma estratégia de mitigação de danos e uma prática ativa de resistência. Ao descentralizar a proteína animal da alimentação e promover a biodiversidade agrícola, abre-se a possibilidade de operar dentro da lógica do Chthuluceno, restaurando vínculos ecológicos e éticos entre humanos e não-humanos.
Compreender que nosso prato cotidiano é tanto reflexo quanto propulsor de forças geológicas e econômicas permite que a escolha alimentar seja entendida como uma ferramenta política potente para a regeneração planetária. Como nos lembra Donna Haraway (2023, p. 96): “a desordem estabelecida não é necessária: outro mundo não é só urgentemente necessário, como também é possível.”

Referências Bibliográficas:
CRUTZEN, P.; STOERMER, E. The Anthropocene. In: Global Change Newsletter, 41, p. 17 – 18, 2000.
HARAWAY, D. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. Tradução: Ana Luiza Braga. São Paulo: n-1 edições, 2023.
HARAWAY. D. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. Trad. Susana Dias, Mara Verônica e Ana Godoy. ClimaCom – Vulnerabilidade [Online], Campinas, ano 3, n. 5, 2016.
MOORE, J. W. Antropoceno ou Capitaloceno? Natureza, história e a crise do capitalismo. Editora Elefante, 2022.
- Pronuncia-se “cutuluceno”.

