O Departamento de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira analisou o estudo recentemente publicado na revista “Environmental Systems and Decisions” (Energy use, blue water footprint, and greenhouse gas emissions for current food consumption patterns and dietary recommendations in the US), divulgado pela Revista Super Interessante, e declara que::

1) Nenhuma das dietas analisadas no referido estudo é vegetariana. Todas as dietas incluem carnes, ovos, laticínios, peixes, dentre outros produtos de origem animal;

2) Três dietas alternativas foram analisadas, uma representando uma redução calórica em relação à dieta típica norte-americana atual, e as outras duas envolvendo substituição de alimentos por grupos alimentares considerados mais saudáveis (referidas como “dietas alternativas” nesta nota). As dietas alternativas incluíram proporção maior de frutas, sementes e vegetais. Porém, estas dietas incluíram um aumento maior ainda do consumo de alimentos de origem animal (peixes, frutos-do-mar e laticínios): o aumento foi de cerca de 300 calorias em frutas+vegetais, porém de 350 calorias a mais de laticínios + peixes/frutos do mar;

3) O aumento de emissões de gases de efeito estufa nas dietas alternativas foi causado primordialmente pelo aumento no consumo de laticínios e peixes/frutos do mar;

4) Uma proporção substancial do aumento do gasto de água, e energético, associado às dietas alternativas foi proveniente do aumento do consumo de frutas. No entanto, os autores consideraram a produção de frutas e vegetais primordialmente na região Califórnia. A Califórnia é uma região árida/desértica, que requer grandes esforços de irrigação, consequentemente grande gasto de água e energia. Ou seja, os resultados do estudo não são representativos da produção de frutas e verduras em outras regiões. Além disso, é importante entender que a comparação da produção de frutas em regiões desérticas/áridas, com a produção de grãos (para alimentar animais) em regiões que não requerem investimento de irrigação proporcional não é válida. Os autores do estudo reconhecem que se a comparação fosse feita de outra forma, assim como em estudos passados, os resultados seriam distintos;

5) Os autores reconhecem que as emissões de gases de efeito estufa (GEE) do grupo de alimentos vegetais como um todo são menores, por caloria produzida, do que as emissões de alimentos de origem animal. Além disso, segundo declaração dada à SVB pelo Dr. David Tilman (Chefe Mcknight em Ecologia, Depto de Ecologia e Evolução da Universidade de Minnesota, EUA), um dos maiores especialistas na área e autor de diversos artigos científicos sobre o tema, uma falha lógica nas análises do estudo foi considerar as emissões de GEE das verduras por quilocaloria, já que estas não são consumidas para satisfazer necessidades calóricas (mas sim para satisfazer o consumo de vitaminas, minerais e outros micronutrientes). O Dr. Tilman acrescenta que quando se consideram as 5 a 8 porções de frutas e verduras necessárias a uma dieta saudável, os resultados mostram o que nível de emissões de GEE destes alimentos é muito baixo (Tilman & Clark 2014 Nature; http://go.nature.com/44YeG4).

6) Os autores pressupõem perdas na produção de alimentos vegetais substancialmente maiores do que as perdas na produção de alimentos de origem animal, ainda que os animais tenham sido alimentados com cultivos vegetais;

7) Como os próprios autores reconhecem, seus resultados não são consistentes com uma vasta literatura, publicada em periódicos de reconhecida excelência científica, que mostram que o impacto ambiental (em termos de gasto de água, emissão de gases de efeito estufa, e uso de energia) do consumo de carnes é muito maior, por caloria ingerida, do que o consumo de vegetais.

Finalmente, os resultados deste estudo advém da escolha de publicações usadas para obtenção dos valores das pegadas ambientais de cada alimento. Se a escolha destas publicações não foi representativa da literatura, e dos sistemas de produção, os resultados tem pouco valor. Uma análise detalhada destas publicações é portanto necessária.

É importante compreender que, por uma questão simples de termodinâmica, não há como a produção de alimentos de origem animal ser mais econômica do que a produção de alimentos de origem vegetal pois há, necessariamente, perda de energia quando esta é transferida de um nível trófico para o outro. Ou seja, as plantas produzem energia comestível a partir da energia solar. Quando estas são consumidas por herbívoros, parte da energia solar capturada é necessariamente perdida, pois foi usada em processos vitais (respiração celular). Os herbívoros, por sua vez, transformam parte da calorias consumidas em carne, mas a maior parte é usada para processos metabólicos do animal (manutenção da temperatura, respiração, reparo de tecidos, locomoção, dentre outros). Ou seja, ao se consumir sua carne, a maior parte da energia que o animal consumiu em calorias vegetais é perdida. Uma regra geral para as cadeias alimentares é que a energia que é transferida em cada passagem de nível trófico é, em média, apenas 10% (há perda média de 90% em cada passagem de nível). Portanto, a afirmação de que para substituir as calorias de 1 kg de carne, por exemplo, precisaríamos de uma quantidade de vegetais muito maior, a qual teria um impacto ambiental maior, não é correta. Pela explicação anterior, fica fácil entender que para produzir 1 Kg de carne o animal teve que comer uma quantidade de vegetais muito maior do que a quantidade que precisaríamos comer para repor estas calorias.

De fato, basta olhar para as estatísticas globais de uso de terra. Atualmente, quase 30% das áreas terrestres do globo são usados como pastagem. Além disso, cerca de um terço dos três bilhões de hectares de todas as terras aráveis se destina ao cultivo de grãos para alimentar animais criados para consumo. Ou seja, usamos quase metade das terras não cobertas por gelo no planeta (75% das áreas agrícolas) para pastagem ou produção de ração. As conclusões deste novo estudo estão longe de serem compatíveis com esta realidade.

NOTA: No dia 16 de dezembro de 2015, a Revista Super Interessante divulgou pela internet a matéria sobre o e.studo publicado na revista “Environmental Systems and Decisions” que sugere que a dieta vegetariana pode ser pior para o ambiente. Após receber o parecer acima, realizado pelo Departamento de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira, a redação da Revista Super Interessante reavaliou e decidiu retirar a publicação do ar no dia 17 de dezembro de 2015

 

Cynthia Schuck

Departamento de Meio Ambiente - SVB

 
 
 
 
 

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