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05/06/2026
Planos Nacionais de Biodiversidade incorporam sistemas agroalimentares, mas deixam pecuária de lado
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O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, ocorre em meio a uma crise global de biodiversidade que exige respostas políticas integradas. No entanto, um novo policy brief da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) revela uma lacuna preocupante: embora os sistemas agroalimentares ocupem papel central nos Planos Nacionais de Biodiversidade (NBSAPs, na sigla em inglês), o impacto específico da produção de origem animal segue amplamente ignorado nesses documentos.
Segundo o policy brief, todos os 78 planos analisados, incluindo a estratégia brasileira, trazem ações sobre o tema, e 36% das medidas previstas globalmente têm relação direta com a produção de alimentos. Os dados, no entanto, expõem uma lacuna significativa: 25% dos NBSAPs não incluem ações específicas para sistemas de cultivo agrícola ou criação animal, setor com relevante impacto documentado sobre a crise de biodiversidade global.
A produção animal, em suas diversas formas, figura entre os principais vetores de degradação ambiental no planeta. Na pecuária terrestre, a expansão de pastagens impulsiona o desmatamento de florestas tropicais e a fragmentação de habitats, comprometendo diversas espécies. O sobrepastoreio degrada a vegetação nativa, compacta o solo e acelera processos erosivos que, em casos extremos, podem levar à desertificação. A criação intensiva de aves e suínos, por sua vez, gera volumes expressivos de dejetos ricos em nitrogênio e fósforo, cujo escoamento causa a eutrofização de corpos d’água, alterando sua qualidade e dizimando a biodiversidade aquática. Indiretamente, toda a cadeia pecuária pressiona o desmatamento por meio da demanda por grãos para alimentação animal. Na aquicultura, os impactos incluem a degradação de manguezais para instalação de viveiros, o risco de escape e hibridização de espécies cultivadas com populações nativas, e o uso de antibióticos e produtos químicos que afetam ecossistemas aquáticos. Ademais, as emissões de metano pelo rebanho bovino contribuem de forma expressiva para as mudanças climáticas.
Esses impactos acumulados estão no centro do que cientistas denominam a sexta grande extinção em massa. Em 2019, estimou-se que um milhão das cerca de 8 milhões de espécies do planeta estão ameaçadas de extinção, enquanto as populações de vertebrados monitoradas registraram queda de 68% entre 1970 e 2016, segundo a WWF.
Diante desse cenário, os dados do relatório da FAO revelam uma incoerência preocupante nas políticas globais. Práticas como a agroecologia e a diversificação dos sistemas produtivos (alternativas com potencial de reduzir os impactos da produção animal) estão presentes em apenas 47% e 26% dos NBSAPs, respectivamente. Abordagens integradas como “One Health“, que articula saúde humana, animal e ambiental, aparecem em apenas 16% dos planos. A redução da produção pecuária intensiva, por sua vez, sequer figura entre as categorias de ação avaliadas e priorizadas no documento.
Os dados reforçam a necessidade de maior coerência entre os compromissos de conservação assumidos pelos países e as políticas agrícolas efetivamente implementadas. Sistemas alimentares que priorizam a produção de carnes, leites e ovos são incompatíveis com as metas climáticas do Acordo de Paris e com a reversão da perda de biodiversidade prevista no Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. O próprio relatório da FAO recomenda que os países ampliem a representação de setores e abordagens sub-representados nos NBSAPs. Incorporar a transição para uma alimentação de base vegetal como estratégia explícita seria um passo consistente com essa recomendação e com a urgência que a crise ecológica impõe. Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, a pergunta que fica é se os governos estão dispostos a traduzir seus compromissos com a biodiversidade em escolhas concretas sobre o que e como produzimos para comer.

Imagem: Proporção de ações que estão relacionadas aos sistemas agroalimentares nos Planos e Estratégias Nacionais de Biodiversidade analisados no estudo
Fonte: FAO (2026)

