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07/07/2026

Como a pecuária ameaça o cacau na Amazônia

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Em 7 de julho se comemora o Dia Mundial do Chocolate, um dos doces mais consumidos no mundo, sendo o tipo ao leite o de maior expressão no mercado global. Por trás desse produto, coexistem dois ingredientes principais: o cacau, fruto nativo da Amazônia com milênios de cultivo por povos originários, e o leite bovino, produto de uma cadeia responsável por emissões expressivas de gases de efeito estufa e pelo uso intensivo de recursos naturais.

O Theobroma cacao, o cacau, é um fruto nativo da Amazônia cuja domesticação por povos originários precede em milênios a chegada dos europeus ao continente. Este fruto integrava os sistemas alimentares indígenas cultivados em consórcio com dezenas de outras espécies nativas em arranjos agroflorestais que alimentavam, curavam e mantinham a biodiversidade simultaneamente. Essa característica não é coincidência já que o cacau cresce melhor à sombra de outras árvores, o que o torna naturalmente compatível com sistemas agroflorestais e, no contexto brasileiro, historicamente associado à proteção florestal. O cultivo deste alimento, no entanto, vem sendo sistematicamente ameaçado pelo avanço da pecuária sobre a Amazônia.

Entre 1985 e 2024, o bioma perdeu 52 milhões de hectares de vegetação nativa, área equivalente a dois estados de São Paulo. As pastagens foram o principal vetor desse processo: saltaram de 12,3 milhões para 56,1 milhões de hectares no mesmo período, e hoje já respondem por mais de 90% das áreas desmatadas na região. Com a floresta, estão sendo suprimidos também os territórios onde sistemas tradicionais, como o cultivo agroflorestal do cacau, eram praticados.

A relação da pecuária com o chocolate, porém, vai além do avanço sobre a Amazônia. O chocolate ao leite depende da bovinocultura leiteira, uma cadeia concentrada no Sul e Sudeste do Brasil. Embora desvinculada do desmatamento amazônico direto, essa produção é altamente intensiva no uso de terra e água, além de gerar altas emissões de gases de efeito estufa. Nesse contexto, o leite em pó desponta como o principal responsável pelo impacto ambiental do produto final. Estudos de Análise de Ciclo de Vida (ACV) permitem quantificar esse impacto com maior precisão. O chocolate ao leite apresenta o maior impacto ambiental entre os tipos de chocolate, com um Potencial de Aquecimento Global (GWP) de 5,94 kg de CO₂eq por quilo, valor significativamente superior ao do chocolate amargo, que registra 3,11 kg CO₂eq/kg, disparidade explicada pelo uso do leite em pó. 

No caso dos chocolates veganos, a substituição do leite de vaca por alternativas vegetais reduz drasticamente o impacto ambiental do produto final. Enquanto o leite bovino gera cerca de 330 g de CO2 equivalente por porção (240 ml), opções como o leite de coco (69 g) e o de amêndoas (98 g) apresentam emissões muito menores. O uso de leites vegetais também otimiza o consumo de recursos hídricos já que a produção de uma porção de leite de vaca consome 21 litros de água, ao passo que o leite de coco demanda apenas 1 litro e o de soja 5 litros. Por esses fatores, a utilização de ingredientes de base vegetal é uma das principais recomendações para reduzir o impacto da indústria do chocolate.

Se a substituição do leite animal reduz o impacto da cadeia leiteira, a escolha do cacau também é de grande relevância. A origem do ingrediente faz diferença pois, em escala global, a cadeia produtiva do cacau está historicamente associada a práticas como trabalho infantil e desmatamento, problemas documentados principalmente na África Ocidental. No Brasil, o cultivo agroflorestal oferece um contraponto ambiental e social. Cultivado em sistemas que integram diversas espécies nativas, esse fruto representa modelos de produção a valorizar. Em Castanhal (PA), por exemplo, produtores estão convertendo antigas pastagens degradadas em sistemas que integram cacau, açaí e espécies florestais nativas. Trata-se de bioeconomia da floresta em pé, que propicia geração de renda para comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas sem o desmatamento que marca a expansão do pasto.

Nem todo chocolate, portanto, conta a mesma história. O cultivo do cacau é ameaçado pelo avanço da pecuária de corte sobre a Amazônia, enquanto a sua versão mais popular (o chocolate ao leite) tem sua pegada ambiental inflada pelas altas emissões de gases de efeito estufa da pecuária leiteira. Ao escolher, vale priorizar produtos veganos, com cacau de origem certificada, selos de agricultura orgânica ou agroflorestal, e marcas que trabalham diretamente com comunidades amazônicas. Consumir de forma consciente é um passo essencial para direcionar demanda a sistemas que mantêm a floresta em pé. 

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