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27/09/2026
Uma Só Saúde: como nossas escolhas alimentares conectam a saúde humana, animal e ambiental
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A saúde do corpo humano, a proteção dos animais e a preservação de florestas e do clima são partes de uma mesma agenda. Nos últimos anos, cientistas e organismos internacionais vêm consolidando essa compreensão sob o termo “Uma Só Saúde” (One Health), uma abordagem que parte de uma premissa simples: não é possível sustentar populações humanas saudáveis em ecossistemas degradados ou em cadeias de produção que exploram animais. Com a publicação recente de estudos sobre nutrição, segurança alimentar e clima, o conceito ganha peso no debate internacional, e a transição para uma alimentação de base vegetal aparece cada vez mais como um dos pontos de convergência entre essas agendas.
O que é “Uma Só Saúde”
A Uma Só Saúde é definida como uma abordagem integrada que busca equilibrar a saúde de humanos, animais e ecossistemas. No Summit One Health, realizado em Lyon (França) entre 5 e 7 de abril de 2026, essa visão foi estruturada em torno de quatro eixos: i) a prevenção de doenças infecciosas emergentes de origem animal (zoonoses), ii) o combate à resistência antimicrobiana, iii) a redução da poluição ambiental, e iv) a construção de sistemas alimentares sustentáveis. As declarações do evento vincularam explicitamente essa agenda a temas como alimentação saudável e acessível, sistemas alimentares locais e soberania alimentar, sinalizando que a transformação da dieta é parte central da discussão sobre a Uma Só Saúde.
Não por acaso, a pecuária ilustra bem por que esses eixos estão interligados. O desmatamento para abertura de pastagens e para monoculturas destinadas à ração, o confinamento de bilhões de animais e o uso extensivo de antimicrobianos na criação de gado criam condições propícias tanto ao surgimento de novas doenças zoonóticas quanto ao esgotamento de recursos naturais, exatamente os riscos que a abordagem da Uma Só Saúde busca antecipar e mitigar.
O que mostram as pesquisas
Os números mais recentes mostram como esse desequilíbrio já se traduz em custos concretos para a saúde humana, um dos três pilares que a abordagem busca proteger. O relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo – 2026“, elaborado conjuntamente por FAO, IFAD, UNICEF, PMA e OMS, associa padrões alimentares inadequados a 12,2% de todas as mortes registradas em 2023. As doenças cardiovasculares, ligadas ao consumo excessivo de sódio e à baixa ingestão de frutas, hortaliças e grãos integrais, aparecem como a principal causa dentro desse recorte. Segundo o mesmo levantamento, o apoio agrícola global aos produtores soma cerca de US$540 bilhões anuais, dos quais aproximadamente 70% está concentrado em um grupo restrito de commodities (grãos, açúcar, laticínios, carne bovina e oleaginosas destinadas à ração animal), o que torna esses produtos artificialmente mais baratos frente a frutas, hortaliças e leguminosas.
Já o Global Nutrition Report 2026 reforça que diretrizes alimentares voltadas à transição para uma alimentação de base vegetal geram co-benefícios diretos, reduzindo emissões de gases de efeito estufa dos sistemas alimentares e a mortalidade prematura por doenças crônicas, e estima que cada dólar investido em nutrição gera um retorno de US$23 em saúde, produtividade e ganhos econômicos. Esses números reforçam o que a Uma Só Saúde propõe: intervir na forma como produzimos e consumimos alimentos é também intervir na saúde pública, e não apenas na saúde ambiental ou animal.
Os custos ocultos do sistema alimentar atual
O modelo alimentar centrado no consumo intensivo de produtos de origem animal compromete a biodiversidade e o clima, além de impor custos econômicos e sociais consideráveis. Em 2023, estimou-se que esses custos ocultos chegassem a US$12 trilhões. Entre eles estão a inacessibilidade financeira à alimentação saudável, o ônus bilionário sobre os sistemas de saúde e a distorção de subsídios que favorecem justamente os alimentos menos alinhados com dietas saudáveis e sustentáveis. Redirecionar parte desses recursos para alimentos nutritivos de origem vegetal está, portanto, entre as medidas mais econômicas e eficientes à disposição dos governos.
Uma solução ao alcance das políticas públicas
Adotar e apoiar uma alimentação baseada em vegetais, além de uma escolha individual de compaixão pelos animais, é uma medida com repercussões diretas sobre saúde pública, uso de recursos naturais e estabilidade climática. Reduzir a pressão sobre ecossistemas, diminuir o consumo de água e a contaminação do solo, conter o aquecimento global e frear a proliferação de bactérias resistentes a medicamentos são efeitos associados a essa transição. A abordagem da Uma Só Saúde reforça, com base em evidências robustas, que a saúde humana é indissociável da saúde animal e ambiental, e que transformar os sistemas alimentares está entre os passos mais eficazes disponíveis para construir um futuro sustentável e justo para todas as espécies.

